Um ano havia
se passado desde a última vez que ele teve notícias de Kate. E só quem conheceu
um dia o sabor da depressão somada à total solidão poderia ter uma mínima ideia
de como tinha sido a vida dele até então. Mas agora, de certo modo, a dor
começava a se tornar suportável. Era como se tudo aquilo já fizesse parte de
seus dias. Como meio de tentar fugir dos problemas, Felipe se mudou para outra
cidade. E como válvula de escape, ele usava o trabalho. Trabalhava duro todos
os dias, sempre fazendo hora extra, tentando fugir de qualquer pensamento que o
fizesse sofrer por ela.
Funcionava.
Pra falar a verdade, já não lhe doía tanto o peito quando se deparava com um
olhar celeste por aí. Sentia-se sozinho, mas não exatamente pela falta de Kate.
Sentia falta de um abraço que reconfortasse a alma, sentia falta de carinho, de
amor e do bom dia na cama. Sentia falta de alguém que o amasse, mas não
exatamente de Kate. Ela havia desaparecido. Quis fugir. Escolheu a vida longe
dele. Deixou-o como se ele nada tivesse representado na vida dela. Pra falar a verdade, melhor assim. Talvez deste modo fosse menos complicado de
se esquecer. Os pesadelos já eram raros. E isso, por si só, já merecia um
brinde.
Felipe não
sabia se seria capaz de amar novamente. Mas preferia não pensar nisso. Pensava
em ter um filho, mas logo imaginou que poderia adotar um. Então não seria
problema. Por hora, devo apenas trabalhar
duro para garantir o futuro da família que um dia será meu tudo. Estava
decidido. A vida seria deste modo. Ele e o futuro filho. E quem sabe, talvez um
cão pra completar a família. Chega de se apaixonar. Chega de sofrer. A vida não
havia acabado. Talvez metade dela, mas não por inteiro. Afinal, não era tão
tarde assim para passar a viver a vida do modo como ela devia ser vivida.
Anoiteceu. E
Felipe sentiu a solidão bater à porta novamente. Na falta de outra companhia,
acabou deixando que ela entrasse. E aquela foi mais uma noite de dor. Mas desta
vez havia uma pequena esperança queimando na alma de Felipe. Sabia ele que
algum dia aquilo ia acabar. E ao deitar, havia no rosto dele um mix de lágrima e sorriso.

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