VI ~ Não tão tarde


Um ano havia se passado desde a última vez que ele teve notícias de Kate. E só quem conheceu um dia o sabor da depressão somada à total solidão poderia ter uma mínima ideia de como tinha sido a vida dele até então. Mas agora, de certo modo, a dor começava a se tornar suportável. Era como se tudo aquilo já fizesse parte de seus dias. Como meio de tentar fugir dos problemas, Felipe se mudou para outra cidade. E como válvula de escape, ele usava o trabalho. Trabalhava duro todos os dias, sempre fazendo hora extra, tentando fugir de qualquer pensamento que o fizesse sofrer por ela.
Funcionava. Pra falar a verdade, já não lhe doía tanto o peito quando se deparava com um olhar celeste por aí. Sentia-se sozinho, mas não exatamente pela falta de Kate. Sentia falta de um abraço que reconfortasse a alma, sentia falta de carinho, de amor e do bom dia na cama. Sentia falta de alguém que o amasse, mas não exatamente de Kate. Ela havia desaparecido. Quis fugir. Escolheu a vida longe dele. Deixou-o como se ele nada tivesse representado na vida dela. Pra falar a verdade, melhor assim. Talvez deste modo fosse menos complicado de se esquecer. Os pesadelos já eram raros. E isso, por si só, já merecia um brinde.
Felipe não sabia se seria capaz de amar novamente. Mas preferia não pensar nisso. Pensava em ter um filho, mas logo imaginou que poderia adotar um. Então não seria problema. Por hora, devo apenas trabalhar duro para garantir o futuro da família que um dia será meu tudo. Estava decidido. A vida seria deste modo. Ele e o futuro filho. E quem sabe, talvez um cão pra completar a família. Chega de se apaixonar. Chega de sofrer. A vida não havia acabado. Talvez metade dela, mas não por inteiro. Afinal, não era tão tarde assim para passar a viver a vida do modo como ela devia ser vivida.
Anoiteceu. E Felipe sentiu a solidão bater à porta novamente. Na falta de outra companhia, acabou deixando que ela entrasse. E aquela foi mais uma noite de dor. Mas desta vez havia uma pequena esperança queimando na alma de Felipe. Sabia ele que algum dia aquilo ia acabar. E ao deitar, havia no rosto dele um mix de lágrima e sorriso.

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