VII ~ Cafeteria


Felipe acordou cedo. Gostava de chegar antes que todos ao trabalho. Sonhava em abrir um dia uma grande cafeteria como aquela em que trabalhava. Só o aroma do local já o fazia se sentir bem. Já trabalhava ali havia sete meses, e aquele era um jeito alternativo que ele adotou para ser meio-feliz. Tinha total certeza de que se conseguisse montar um empreendimento daquele, parte de sua vida já estaria preenchida. E suas economias já somavam uma boa quantia, embora ainda teria que economizar muito. Mas isso não era problema. As horas extras que ele fazia sempre rendiam bem mais do que receberia normalmente. E por esta razão, trabalhar duas ou três horas a mais lhe era quase uma religião.
Porém aquele não era um bom dia para ele. Seu corpo reclamava por um pouco mais de cama, um pouco mais sono. Quase que lhe implorando para que não fizesse hora extra naquele dia. Por outro lado, o medo de ir pra casa e ficar horas e horas pensando em Kate o atormentava. E durante todo o decorrer do dia, esta dúvida não lhe saiu da cabeça. O cansaço e a tormenta o distraíam, e todos começaram a perceber o quão perturbado parecia a mente de Felipe.
– Vá para casa, Felipe. – aconselhava o patrão. – Não se esforce tanto. Descanse por hoje.
– Desculpe-me. Sei que não estou dando o meu máximo hoje. Mas não se preocupe, terei mais atenção.
– Não estou lhe dando nenhum sermão, Felipe. Apenas estou lhe concedendo folga pelo resto do dia. Vá. Descanse.
– Não é necessário, Sr. Jones. Obrigado. Eu só estava meio distraído, mas já estou melhor. Garanto.
O patrão de Felipe olhou-o analiticamente tentando descobrir qualquer coisa, mas logo se desinteressou.
– Pois bem. Se é assim que prefere, vá atender a mesa nove. Eles já devem ter escolhido o pedido.
Felipe assentiu com a cabeça, e seguiu para a mesa nove, na área B. O local estava apinhado de gente. O barulho naquele horário fazia parecer que ali não funcionava uma cafeteria. Assemelhava-se muito mais a um bar. Não era o melhor horário para se trabalhar, e por isso mesmo que a hora extra neste horário era mais lucrativa.
Era tantas conversas paralelas que era quase impossível ouvir o pedido de um cliente, mas Felipe até já tinha se acostumado a isso também. Desceu as escadas, passou pelo balcão da ala B, e ao longe visualizou a mesa. De repente, silêncio. Felipe sentiu que seus pés perdiam o chão. Sentiu uma forte pontada no peito, seu pulmão perdia o ar, mas seu coração ganhava embalo. À mesa, Kate e um homem. O marido de Kate!
Jamais imaginou que a encontraria naquela cidade. Quais as chances de nós dois nos mudarmos para uma mesma cidade e nos encontrarmos em uma cafeteria qualquer? Não, aquilo não podia ser verdade. Não tinha chances de ser.  Estava enlouquecendo, e não podia deixar que aquilo acontecesse. Recuperou parte das forças e seguiu até a mesa. Desconfiando piamente dos próprios olhos. Não é a Kate. Pensava. Não há possibilidade lógica de que isso aconteça. E continuou a andar.
– Felipe? – dizia aquela voz feminina assustada, mas inconfundível. – O que faz por aqui?
Ele sentiu outra pontada no peito. Mas ainda assim não iria recuar. Ainda que fosse ela. Fez uma promessa a si mesmo. Iria ser feliz. E a Kate... A Kate que se dane!
– Pois não, senhorita. – Felipe fez uma pausa controlada que até ele mesmo duvidou de sua frieza – Eu trabalho aqui. Já fizeram o pedido?
O olhar de Felipe agora fitava o homem sentado à frente dela. Kate não soube o que responder. Houve uma troca de olhar cálida e rápida entre o casal, que mostrou um grau de ciúme exacerbado daquele rapaz.
– Um café expresso com adoçante e uma porção de pão de queijo. – As palavras dele denotavam um tom áspero. E de mesmo tom, direcionou à Kate – E você, o que quer?
Felipe sentiu um ódio mortal por dentro. Quis proteger Kate daquele homem. Ninguém fala com ela deste modo! Mas logo lembrou que não tinha nada a ver com a vida do casal, contendo o ódio dentro de si. Enquanto aquela cena prosseguia, Felipe começou a analisar o homem. A camisa estava amassada, o rosto era rústico, os olhos sem brilho, e as mãos pareciam tão ásperas quanto a voz do homem. Imaginou aquelas mãos acariciando o rosto de Kate, e sentiu ânsia de vômito.
– Um expresso sem açúcar, por favor. – A voz de Kate demonstrava o embaraço diante daquela situação.
Felipe tomou nota dos pedidos, e se retirou. Sua cabeça processava mil informações. Dentre elas, a inconformidade em ter sido trocado por aquele homem. O que ela viu nele? Mas logo se arrependia dos próprios pensamentos. Não, eu não tenho nada a ver com as decisões dela. Não mais.
Felipe passou o pedido para um colega de trabalho e decidiu por aceitar a oferta do patrão. Iria embora mais cedo. Não estava se sentindo bem para continuar trabalhando naquele dia.
E no caminho de volta pra casa, as mãos ásperas daquele homem invadiram a mente de Felipe. E antes que ele pudesse desvencilhar dos pensamentos, Felipe lembrou que não viu aliança alguma naqueles dedos. E quase que imediatamente depois, lembrou-se do rodapé da última carta que recebeu dela quando ela noticiava o tal casamento. Na assinatura, ela ainda assinava Kate Whitney Peterson.

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