Felipe acordou
cedo. Gostava de chegar antes que todos ao trabalho. Sonhava em abrir um dia
uma grande cafeteria como aquela em que trabalhava. Só o aroma do local já o
fazia se sentir bem. Já trabalhava ali havia sete meses, e aquele era um jeito
alternativo que ele adotou para ser meio-feliz. Tinha total certeza de que se
conseguisse montar um empreendimento daquele, parte de sua vida já estaria
preenchida. E suas economias já somavam uma boa quantia, embora ainda teria que
economizar muito. Mas isso não era problema. As horas extras que ele fazia
sempre rendiam bem mais do que receberia normalmente. E por esta razão,
trabalhar duas ou três horas a mais lhe era quase uma religião.
Porém aquele
não era um bom dia para ele. Seu corpo reclamava por um pouco mais de cama, um
pouco mais sono. Quase que lhe implorando para que não fizesse hora extra
naquele dia. Por outro lado, o medo de ir pra casa e ficar horas e horas
pensando em Kate o atormentava. E durante todo o decorrer do dia, esta dúvida não
lhe saiu da cabeça. O cansaço e a tormenta o distraíam, e todos começaram a
perceber o quão perturbado parecia a mente de Felipe.
– Vá para
casa, Felipe. – aconselhava o patrão. – Não se esforce tanto. Descanse por
hoje.
– Desculpe-me.
Sei que não estou dando o meu máximo hoje. Mas não se preocupe, terei mais
atenção.
– Não estou
lhe dando nenhum sermão, Felipe. Apenas estou lhe concedendo folga pelo resto
do dia. Vá. Descanse.
– Não é
necessário, Sr. Jones. Obrigado. Eu só estava meio distraído, mas já estou
melhor. Garanto.
O patrão de
Felipe olhou-o analiticamente tentando descobrir qualquer coisa, mas logo se
desinteressou.
– Pois bem. Se
é assim que prefere, vá atender a mesa nove. Eles já devem ter escolhido o
pedido.
Felipe
assentiu com a cabeça, e seguiu para a mesa nove, na área B. O local estava
apinhado de gente. O barulho naquele horário fazia parecer que ali não funcionava
uma cafeteria. Assemelhava-se muito mais a um bar. Não era o melhor horário
para se trabalhar, e por isso mesmo que a hora extra neste horário era mais
lucrativa.
Era tantas
conversas paralelas que era quase impossível ouvir o pedido de um cliente, mas
Felipe até já tinha se acostumado a isso também. Desceu as escadas, passou pelo
balcão da ala B, e ao longe visualizou a mesa. De repente, silêncio. Felipe sentiu que seus pés perdiam o chão. Sentiu uma
forte pontada no peito, seu pulmão perdia o ar, mas seu coração ganhava embalo.
À mesa, Kate e um homem. O marido de Kate!
Jamais
imaginou que a encontraria naquela cidade. Quais
as chances de nós dois nos mudarmos para uma mesma cidade e nos encontrarmos em
uma cafeteria qualquer? Não, aquilo não podia ser verdade. Não tinha
chances de ser. Estava enlouquecendo, e
não podia deixar que aquilo acontecesse. Recuperou parte das forças e seguiu
até a mesa. Desconfiando piamente dos próprios olhos. Não é a Kate. Pensava. Não há
possibilidade lógica de que isso aconteça. E continuou a andar.
– Felipe? –
dizia aquela voz feminina assustada, mas inconfundível. – O que faz por aqui?
Ele sentiu
outra pontada no peito. Mas ainda assim não iria recuar. Ainda que fosse ela.
Fez uma promessa a si mesmo. Iria ser feliz. E a Kate... A Kate que se dane!
– Pois não,
senhorita. – Felipe fez uma pausa controlada que até ele mesmo duvidou de sua
frieza – Eu trabalho aqui. Já fizeram o pedido?
O olhar de
Felipe agora fitava o homem sentado à frente dela. Kate não soube o que
responder. Houve uma troca de olhar cálida e rápida entre o casal, que mostrou
um grau de ciúme exacerbado daquele rapaz.
– Um café
expresso com adoçante e uma porção de pão de queijo. – As palavras dele
denotavam um tom áspero. E de mesmo tom, direcionou à Kate – E você, o que
quer?
Felipe sentiu
um ódio mortal por dentro. Quis proteger Kate daquele homem. Ninguém fala com ela deste modo! Mas
logo lembrou que não tinha nada a ver com a vida do casal, contendo o ódio
dentro de si. Enquanto aquela cena prosseguia, Felipe começou a analisar o
homem. A camisa estava amassada, o rosto era rústico, os olhos sem brilho, e as
mãos pareciam tão ásperas quanto a voz do homem. Imaginou aquelas mãos
acariciando o rosto de Kate, e sentiu ânsia de vômito.
– Um expresso
sem açúcar, por favor. – A voz de Kate demonstrava o embaraço diante daquela
situação.
Felipe tomou
nota dos pedidos, e se retirou. Sua cabeça processava mil informações. Dentre
elas, a inconformidade em ter sido trocado por aquele homem. O que ela viu nele? Mas logo se
arrependia dos próprios pensamentos. Não,
eu não tenho nada a ver com as decisões dela. Não mais.
Felipe passou
o pedido para um colega de trabalho e decidiu por aceitar a oferta do patrão.
Iria embora mais cedo. Não estava se sentindo bem para continuar trabalhando
naquele dia.
E no caminho
de volta pra casa, as mãos ásperas daquele homem invadiram a mente de Felipe. E
antes que ele pudesse desvencilhar dos pensamentos, Felipe lembrou que não viu
aliança alguma naqueles dedos. E quase que imediatamente depois, lembrou-se do
rodapé da última carta que recebeu dela quando ela noticiava o tal casamento.
Na assinatura, ela ainda assinava Kate
Whitney Peterson.
