Coração de homem


E o que fazer quando o coração se acostuma com o calor de alguém de que não se tem a certeza de que estará presente? Como sossegar um coração que pulsa, agita, grita por carinho deste alguém que se dá mitigadamente? E se um dia ela for embora para sempre? Como explicar tal situação a um coração incapaz de compreender sequer os mínimos riscos de estar apaixonado? E se esse dia fosse hoje? E se ela nunca mais voltasse? Como eu poderia negociar uma trégua com meu coração? Quais palavras eu poderia utilizar para convencê-lo que chorar por ela dói mais em mim do que nele? E seria ele capaz de entender?
Coração de homem é um órgão complicado, frágil e instável. Talvez por isso que ele se recusa tanto a sair de casa, embarcar numa paixão, e viajar acompanhado para lugares tão distantes. Ele sabe que é difícil de voltar. Sabe que dói ter que pegar o voo de volta sozinho, embora deseje mais do que tudo ter que fazer esta viagem um dia, mas desde que seja uma viagem sem volta. É a condição que ele sempre impõe.
Pobre ser! Ao que parece, jamais entenderá que toda viagem tem seus riscos. Jamais entenderá que ele não pode impor condição alguma. Jamais conseguirá calcular, planejar, mudar de ideia ou aceitar a própria derrota. Priva-se, priva-se e priva-se por tanto tempo que quando se entrega deseja viver todas as fantasias que acumulou durante a adolescência. Pobre ser e amigo! Tudo que ele sabe fazer é amar e bombear vida em minhas veias. E mais pobre é aquele que sequer sabe amar, pois o sangue que bombeia é insosso e frio. Mas tenho mais dó deste meu coração. Pobre, pobre... Está mais apaixonado e perdido que a lua pelo mundo, que gira em torno dele sem sequer poder tocá-lo. Ao menos ela pode vê-lo todos os dias. E quanto a isso, coração... eu não sei se posso garantir a você.
Mas é assim mesmo. Pois este nobre ser pulsante é um coração de homem. E é extremamente complicado de aconselhá-lo. Mas coração de homem, por favor, compreenda! Amo-a tanto quanto você. Mas tenha paciência. Se um dia ela vier viver ao nosso lado, prometo cuidar dela como eu sei que cuidaria se você fosse eu. Mas se ela sumir de nossas vidas por qualquer motivo, por favor, ajude-me a aceitar tal tragédia. Pulse e viva comigo como se isto bastasse por si só. E compreenda, meu caro, esta é uma paixão irresistível! E nós dois concordamos em correr todos os riscos juntos. Mas, por enquanto, vamos vivendo um dia de cada vez. Devolva-me as noites de sono, e prometo que te levarei para vê-la de vez em quando, e quem sabe até abraçá-la. Tens a minha palavra. Mas, por enquanto, sossega-te, meu caro amigo!

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