Os morenos


O sol ainda estava se decidindo se iria nascer naquele dia, ou se enviaria nuvens cinzentas para encobrir o céu, e o moreno camponês já estava a alimentar os seus bichos, sob as luzes das estrelas mais brilhantes do eterno. Na roça ele tinha de tudo. Sua vida era tão rica e farta, que o moreno sequer sentia falta do dinheiro que não tinha. Muitas vezes até se esquecia da explicação que lhe deram sobre o que é “dinheiro”.
Cê ta falando sério memo? Esse povo todo aí tá se matano pur’um pedaço de papér?
Era exagero, claro. O moreno conhecia o dinheiro, e até tinha alguns trocados, porém não entendia toda aquela busca desenfreada por algo que nunca acrescentou na felicidade de ninguém. Sabia ele que era perfeitamente capaz de atravessar toda a sua vida sem ter um centavo no bolso, e sem deixar de ser o homem feliz que era. E sabia falar corretamente, mas nunca se sentiu à vontade com uma língua tão enxuta. Dava a impressão de que a vida era séria.
Esse moreno havia aprendido logo cedo que a natureza tem um segredo simples: dê a ela um pouco, e ela te devolverá não o dobro, mas inúmeras vezes mais. Seja fiel no pouco, e no muito vos colocarei. Plantar era a sua vida. E o moreno gostava daquilo. Dizia ele que Deus deve ter sentido a mesma sensação ao fazer o mundo e todos os bichinhos que aqui moram. Plantar uma sementinha e cuidar para que ela germine e cresça verdinha e saudável é tão divino quanto o nascer de uma criança.
Já começava a amanhecer o dia, e o moreno tirava leite ao lado de seu menino que se empanturrava com copos e copos de leite. Ao longe, preparando um café forte no fogão à lenha, estava a morena. E dali ela olhava, regozijando uma das cenas que sempre se repetia todas as manhãs, mas que ela nunca cansava de admirar: naquele momento, o sol começava a surgir no horizonte, por detrás das montanhas mais belas, e em contraste ela enxergava a sombra dos dois amores de sua vida sorrindo alto um para o outro. E sorriam sempre por tão pouco! Desta vez foi o bigodinho de leite do moreninho que causou tantas risadas entre eles.
Uma família tão feliz no meio do nada. Quem poderia imaginar? Não ela. Não ele. Tampouco o moreninho que já nasceu no meio daquilo tudo.  A vida prega peças esquisitas na gente! Pensava a morena. Ela havia se formado arquiteta na Universidade Federal da Bahia, e fazia milhões de planos para quando se mudasse para São Paulo e iniciasse o seu futuro brilhante. Já o moreno, formou-se engenheiro. Trabalhava numa grande companhia, com um dos salários mais desejados do estado de Santa Catarina. Mas de repente o destino começou a brincar de batedeira, colocando todos os caminhos do mundo numa tigela e misturando com veemência.
A morena e o moreno se conheceram em Poços de Caldas, uma cidadezinha bonita do interior do estado de Minas Gerais. Ele havia ido para conhecer as famosas fábricas de cristais. Ela, por seu avô que estava muito doente. Encontraram-se numa farmácia, onde o moreno comprava remédio para a garganta no momento que a morena chegou, apressada, quase em desespero. Pediu ao farmacêutico que lhe vendesse insulina, mas na hora de verificar a bolsa notou que não havia trazido a bolsa com todo o seu dinheiro. O moreno logo se apressou em ajudá-la no pagamento, que de início recusou a oferta daquele estranho, mas teve de aceitar devido à urgência em socorrer o avô. Em contrapartida, ela insistiu que o moreno a acompanhasse para que pudesse devolver o dinheiro. Deu tudo certo. O avô tomou o remédio antes que sofresse complicações mais sérias. E ali nascia uma eterna amizade entre o moreno e a morena.
Mas ela não podia mais sair de perto do avô... não mais! Todos os planos para São Paulo foram cancelados. E o moreno... Esse até tentou voltar para Santa Catarina, mas seu coração já havia sido sequestrado. Em duas semanas ele estava de volta. Deixou tudo pra trás. E dez anos depois, ali estavam eles, situados em meio ao simples, ao mato, ao coração da natureza. Felizes e livres, do jeito que vieram ao mundo.
Aos domingos iam todos à capelinha no alto do morro, lugar onde casaram e começaram a entender que a vida que ficou pra trás não tinha a essência das flores. Por tanto tempo haviam planejado inconscientemente planos que os levariam a caminhos infelizes, e não faziam a mínima noção disso. Mas, por sorte, existe algo abstrato com a força de uma batedeira, que faz tudo dar errado. E é só a partir do momento que tudo dá errado é que a vida começa de verdade.

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