O grande
martírio é ter que enfrentar a saudade. É ter que olhar para o celular sem
fazer ideia de quando vai tocar, ou se vai tocar. Um sms, uma ligação, um e-mail, um recado no facebook, qualquer coisa! Pois jogar-se num quarto ouvindo jazz e soul, com o celular em uma mão e uma taça de vinho em outra não é o
melhor programa de todos.
A paixão tem
lá as suas desvantagens, apesar de acordarmos sorrindo quase todos os dias.
Saltitantes, como uma criança que achou ter visto Papai Noel descer pela
chaminé. Ela é dolorosa, impaciente, sufocante, ilusória... Mas não sejamos
injustos! Ela só é assim quando está acompanhada da saudade. E nem sejamos
injustos também com a saudade. Ela por si só também é boa. É o que reaviva o
carinho, o desejo, o amor, e também o que ascende a vontade de perdoar. Ah,
sim! O perdão. A melhor virtude de todas.
Paixão sem
saudade é ouro. Pois só ocorre quando as duas almas estão juntas, tocando-se
mutuamente em uma bela sinfonia. É o ponto mais nobre do amor, seu ápice. O
amor é puro, a paixão eleva-o ao surreal, lapidando os reais segredos de um
sentimento verdadeiro.
Mas a paixão
sufoca, e a saudade deprime. A paixão causa a saudade, e a saudade causa a
paixão. Ora sim, ora não, e as duas lá estão caminhando de mãos dadas
novamente. E vez ou outra atingirão mais um pobre homem. E lá estará ele,
jogado num quarto de luzes apagadas, ao som de um jazz ou soul, segurando a
esperança em uma mão, e o alívio em outra.

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