V ~ Daqui até a eternidade


Ao fundo, um jazz suave oferecia uma falsa companhia. Na mesa, um envelope rasgado sem identificar o endereço do remetente. Nas mãos de Felipe, a carta de Kate. Eram palavras difíceis de serem ingeridas. Uma bela caligrafia expressando palavras que carregavam com elas a dor de um jamais. De certo modo, conseguia imaginar Kate dizer todas aquelas palavras. Era como se o coração de Felipe já aguardasse aquele rompimento formal. Pois foi apenas a formalização do mal que já havia se instaurado.
Perguntou-se se poderia haver qualquer espécie de equívoco em sua compreensão. Vai ver, ele leu alguma frase errada que deu um sentido diferente à carta. Relia teimosamente. E doía. Seus olhos sentiam de cada palavra um corte profundo. Kate, Kate... Por que fez isso comigo? Sempre te amei tanto. Sempre te quis tão bem. Mas desta vez ele tinha certeza de que não havia cometido erro algum. Aquele era o exato sentido que Kate quis conferir às palavras. Mas teimosamente os olhos de Felipe se guiavam pelas frases mais expressivas da carta:
“Eu... me casei.”
“...não pretendo voltar atrás.”
“...meu corpo foi dado em matrimônio ao meu marido.”
“Siga a tua estrada.”
“...odeie-me profundamente.”
Odiá-la? Ela acha que é simples assim? Felipe jamais entenderia o porquê de tudo aquilo. Iria amá-la, ainda que não quisesse que fosse assim. Iria amá-la, ainda que tentasse odiá-la. Era o seu destino. Irá amá-la até que a terra consumisse a sua última célula. E irá doer, a cada vez que amanhecer. Irá doer a cada vez que ver um casal, a cada vez que se ver sozinho e a cada vez tiver contato com qualquer das lembranças dela. Irá doer, irá sangrar e irá matá-lo. Mas antes disso, a dor fará parte dos seus dias, e principalmente de suas noites. Sonhará com ela e acordará chorando. E a cada sonho, ele a verá deixando-o. E a cada adeus, sua vida irá dissipando. Até que seja eterno.

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