Ao fundo, um jazz suave oferecia uma falsa companhia.
Na mesa, um envelope rasgado sem identificar o endereço do remetente. Nas mãos
de Felipe, a carta de Kate. Eram palavras difíceis de serem ingeridas. Uma bela
caligrafia expressando palavras que carregavam com elas a dor de um jamais. De certo modo, conseguia
imaginar Kate dizer todas aquelas palavras. Era como se o coração de Felipe já
aguardasse aquele rompimento formal. Pois foi apenas a formalização do mal que
já havia se instaurado.
Perguntou-se
se poderia haver qualquer espécie de equívoco em sua compreensão. Vai ver, ele
leu alguma frase errada que deu um sentido diferente à carta. Relia
teimosamente. E doía. Seus olhos sentiam de cada palavra um corte profundo. Kate, Kate... Por que fez isso comigo?
Sempre te amei tanto. Sempre te quis tão bem. Mas desta vez ele tinha
certeza de que não havia cometido erro algum. Aquele era o exato sentido que
Kate quis conferir às palavras. Mas teimosamente os olhos de Felipe se guiavam
pelas frases mais expressivas da carta:
“Eu... me
casei.”
“...não
pretendo voltar atrás.”
“...meu corpo
foi dado em matrimônio ao meu marido.”
“Siga a tua
estrada.”
“...odeie-me
profundamente.”
Odiá-la? Ela acha que é simples assim?
Felipe jamais entenderia o porquê de tudo aquilo. Iria amá-la, ainda que não
quisesse que fosse assim. Iria amá-la, ainda que tentasse odiá-la. Era o seu
destino. Irá amá-la até que a terra consumisse a sua última célula. E irá doer,
a cada vez que amanhecer. Irá doer a cada vez que ver um casal, a cada vez que
se ver sozinho e a cada vez tiver contato com qualquer das lembranças dela. Irá
doer, irá sangrar e irá matá-lo. Mas antes disso, a dor fará parte dos seus
dias, e principalmente de suas noites. Sonhará com ela e acordará chorando. E a
cada sonho, ele a verá deixando-o. E a cada adeus, sua vida irá dissipando. Até
que seja eterno.

0 comentários