Duas crianças


            – Você promete que não vai me abandonar?
A voz era de uma garotinha de aparência frágil, de pele uniforme, sem qualquer mancha ou cicatriz, que devia ter não mais que seis ou sete anos. Seus cabelos de ouro eram reluzentes e tão finos que ficava difícil de divisá-los. E aquele olhar suplicante... Tempo algum poderia apagá-lo de minha memória.
Na verdade, eu também não tinha longa idade. Havia completado oito anos há apenas duas semanas, mas naquela época eu já me via como adulto. Um pequeno grande homem, como eu afirmava com afinco. Mas diante daquele pequeno anjo, sentia-me como a verdadeira criança que eu sempre fora.
Era hora do recreio. Estávamos sentados à mesa de cimento no jardim da escola, onde nos encontrávamos todos os dias.
– Sabes bem que eu jamais irei a lugar nenhum sem você – a minha resposta entoou com confiança, apesar da enorme dúvida que me assombrava, pois eu sabia que logo a minha família estaria se mudando para outro estado – Você é a minha melhor amiga. E isso nunca vai mudar.
– Papai dizia a mesma coisa...
Nunca havia visto uma lágrima responder às emoções tão rapidamente. De repente ela chorava como a criança que realmente era, embora tivesse de enfrentar a vida como uma verdadeira adulta. A pequena guerreira, como eu costumava chamá-la porque ela nunca havia me dito o seu nome, morava em um orfanato. Sua mãe havia morrido no parto. E seu pai abandonou-a quando ela ainda tinha quatro anos. A diretora do orfanato tentou explicar a ela que as pessoas mudam quando se casam. Largam muitos amigos, parentes, e às vezes até mesmo os filhos. Mas dizia que um dia ela iria superar. Mas esse dia ainda não havia chegado.
– Promete que nunca vai se casar?
Aquela voz suplicava carinho e proteção. Partia-me o peito ter de dizer “não, eu não posso prometer tal coisa”, pois eu sonhava crescer forte, inteligente, e ser o melhor pai de todos. Obviamente ao lado da que seria a melhor mãe de todas. Mas aqueles olhos me raptavam. Doía em meu peito qualquer ato imaginado que pudesse machucá-la. Foi quando tentei desvencilhar-me daquela promessa apenas com um gesto, abraçando-a forte.
Dentro dos meus braços, os soluços dela aumentaram. A respiração começou a ofegar, e ela insistiu:
– Prometa pra mim...!
A voz saiu completamente falhada, quase ininteligível. Percebi que não teria para onde fugir. Eu estava cansado de mentir para ela só para não machucá-la. Um dia, as minhas próprias mentiras que iriam a machucar. Desfiz o abraço e a pus frente a frente comigo.
– Eu... – ensaiei uma tentativa que se frustrou diante daquele rosto rosado pelo choro. Mas prossegui. –Eu gostaria de me casar um dia. – doía tanto dizer aquilo – Desculpe-me.
E um leve soluço afastou qualquer dúvida que eu poderia ter sobre como ela recebeu tal resposta. Mas desta vez ela continha as lágrimas. Os olhos agora suplicavam para que eu continuasse a me explicar, e não apenas que eu me desculpasse.
– Olha, você também vai se casar um dia. Vai ser muito feliz e...
– Eu não vou me casar! Não vou, não vou e não vou!
Eu não tinha argumentos. Casar é bom, era isso que meus pais diziam. Mas eu mesmo sabia que isso não era auto-explicativo. Eu queria que ela fosse feliz também. Será que estou sendo imaturo? É triste ter que trabalhar com maturidade enquanto se é tão novo.
Pequena Guerreira, entenda. – resolvi assumir o tom de voz que meu pai utilizava quando me dava conselhos – você vai se casar! Quer você queira isso agora, quer não! Mas um dia você vai querer. Vai desejar ser feliz. Ou você acha que não iria gostar de viver com quem você gosta ao seu lado pra sempre?
Ela me olhou assustada. Eu devia realmente ter causado impacto com aquelas palavras. De certo modo, eu estava feliz. Acho que ela finalmente começou a compreender que estar com quem a gente gosta pra sempre não é algo ruim.
Seu olhar começou a recuperar o brilho com uma ideia que germinava, e eu fiquei feliz em saber que ela finalmente tinha entendido que eu não dizia aquilo para o mal dela. Seu olhar agora era sério, determinado.
– Então eu me casarei com você.
Agora o meu olhar que estava perplexo. Eu e a Pequena Guerreira? Juntos? Não, ela é uma amiga! E eu não sabia o que responder. Mas ela mesma rompeu o silêncio que imperava ali com a sua velha postura de quem sempre soube o que está fazendo.
– Você disse que o casamento é estar com quem a gente gosta pra sempre. – ela pausou e olhou para mim como se me explicasse o óbvio – Então que seja você, oras!
Eu, ainda perplexo, abri a boca para argumentar, mas nada saiu dali. Olhei silenciosamente por mais um instante, e diante daquele olhar marcante, eu tomei uma decisão.
– Está bem, pequena. Nós iremos nos casar.
Assim que eu voltava da escola, encontrei um caminhão de mudanças em frente à minha casa. E, à frente do caminhão, meu pai buzinava em seu Tempra branco.
– Vamos, filho! Já estamos indo para a casa nova!
Eu parei, assustado, embora já previsse tal coisa. Segui em passos lentos. Abri a porta de trás do carro e me sentei. E enquanto eu colocava o sinto de segurança, tive a sensação de sentir os braços da Pequena Guerreira me envolvendo.
Naquela mesma hora partimos para a outra casa a quilômetros de distância. E eu nunca mais vi a Pequena Guerreira, nem sequer sabia o nome dela.

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