Casualidade


– Eu te olhava, sabe? Todos os dias. Ficava ali, distante, te olhando timidamente, sem ter coragem de me aproximar.
– Por que nunca veio conversar comigo?
– Eu não sei. Sentia tanta vergonha só de fantasiar uma possível conversa com você, imagina então como eu me sentiria se realmente estivéssemos conversando.
– Mas agora você está conversando comigo.
– Mas é porque agora eu sei que também me ama. Agora sei que não sinto isso sozinha. – ela fez uma pausa enquanto acariciava o rosto dele – Eu pensei que esse momento jamais aconteceria. Era tudo tão improvável de acontecer.
– Por que diz isso?
– Você era sempre tão inacessível, tão distante de todos. Não o via conversar com quase ninguém. Caminhava sempre sozinho, almoçava e jantava só. Até mesmo quando viajava, você jamais tinha uma companhia... Por que se isolava tanto?
– Eu tinha medo.
– Medo de quê?
– Sei que não faz sentido, mas eu tinha medo de me deixarem sozinho. E por esse motivo, eu preferia viver só do que correr o risco de me abandonarem.
– E como conseguiu coragem para vir falar comigo?
– Eu nunca tive. Mas eu sequer tive escolha. Quando te vi passar por mim a minha boca lhe desejou bom dia. E o teu sorriso me impediu de recuar.
Ela recostou a cabeça e as emoções sobre o ombro dele, sussurrando baixinho:
– Que bom que me desejou bom dia.
E ele, abraçando-a forte, respondeu.
– Que bom que você sorriu pra mim.

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