III ~ Perfumes



Felipe acordou cedo naquele dia. Detinha consigo uma vontade urgente de ser feliz. Levantou-se num salto, abriu a cortina e respirou fundo com um sorriso no rosto. Hoje será um novo recomeço. Nada de Kate. Nada de lágrimas! Tomou um banho rápido, vestiu uma roupa confortável e calçou seu sapato novo. Seguiu até a penteadeira e olhou para um único perfume que estava ali. Olhou para ele por um instante, e voltou até o armário onde abriu uma gaveta e ficou um tempo a mais apenas a olhar. Dentro de uma pequena caixinha vermelha havia um perfume ainda na embalagem. Abriu-a com cuidado e borrifou duas doses sobre o pescoço. Sentiu um cheiro levemente doce subindo pelo ar. No mesmo instante sua mente viajou ao momento em que ganhava aquele pequeno presente de sua adorável Kate. Sentiu um calafrio cobrir todo o seu corpo. Desvencilhou-se rapidamente daquelas memórias e saiu apressado, tentando manter o sorriso no rosto.
Durante o pequeno passeio que fazia pelo bosque ele até mesmo conseguiu se distrair daqueles lindos olhos azuis. Ao menos parecia, vendo-o com aquele sorriso pacífico de quem sabe viver a vida. Era surpreendente aquela recuperação. De repente, um homem que nunca mais quis sair do seu quarto levanta-se cedo em pleno domingo para passear com um sorriso tão bonito no rosto.
O vento soprava gostoso, trazendo a sensação de que logo viria uma chuva cobrindo aquele local. O lugar estava deserto, e Felipe estava agachado à beira do lago, sentindo aquela paz. Os minutos passavam de pressa, e ele apenas se distraía com pequenas ondas que se formavam quando os peixes subiam até a superfície para respirar. Poderia ficar ali o dia inteiro. E porque não? Um dia delicioso deste merece que seja aproveitado ao máximo!
Subitamente Felipe se virou para trás assustado, procurando por algo que nem ele entendia exatamente o quê. Aquele gesto súbito assustou a moça que se aproximava silenciosamente para pedir uma informação. Era uma linda menina afinal, de olhos negros cintilantes, dentes tão alvos quanto a neve, e cabelo cacheado de um preto tão escuro que dava um toque de sensualidade sobre a pele morena. E havia um perfume tão leve quanto a névoa.
Felipe improvisou um sorriso e tentou se desculpar dizendo as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça:
- Mil perdões, é que eu me assustei com o seu perfume... – as últimas palavras saíram quase que inaudíveis.
A moça fez uma cara de espanto ainda maior. Mas os dois acabaram por rir da situação. E o que seria apenas um pedido de informação, acabou se transformando em uma longa conversa. Porém, havia algo naquela moça que o deixava inquieto.
Algum tempo depois, já de volta ao seu apartamento, Felipe sentou-se num canto da sala repassando em mente tudo que havia acontecido. Estava feliz, rindo para si próprio. Era a primeira vez que conseguiu falar com uma moça que não fosse a sua irmã desde o dia em que se separou de Kate. Mais que isso, era a primeira vez que conversou pessoalmente com uma mulher desde então, já que a sua irmã estava morando em Santiago, no Chile.
De repente ele conseguiu entender o porquê de ter se assustado com a presença daquela moça. O sorriso que até então ainda reinava no rosto de Felipe, desapareceu sem deixar sequer um único resquício. A moça não era encantadora por acaso, ela apenas exalava o mesmo cheiro que Kate. Já não bastava que Felipe tivesse usado o tentador perfume que havia ganhado de presente, o destino teve que lhe conferir naquele mesmo dia o cheiro inconfundível do perfume de Kate. E naquele dia, Felipe chorou até ensopar o travesseiro de lágrimas.

0 comentários