I ~ A última carta


Passava-se um pouco da hora marcada. O sol já se punha, e as esperanças de Felipe, que já estava sentado naquele mesmo banco há horas, esvaiam-se lentamente. Há meses ele havia recebido uma carta que alimentava diariamente os seus ânimos, seus sonhos, suas ilusões. Poucas palavras havia escritas ali:

“Espere-me. Eu voltarei. Se eu não voltar antes do pôr do sol do dia 10 de junho, esqueça-me de uma vez por todas.

Kate W. Peterson

A última frase sempre o desconcertava, mas Felipe acostumou-se a ler apenas “Espere-me. Eu voltarei. Kate W. Peterson”, fazendo ensaios mentais de como seria o dia do reencontro. Como seria? O perfume dela ainda seria o mesmo? E os seus gestos, mudaram ou ainda são belos? E as suas mechas? Ainda são de ouro?
Mas não havia mais seria. O dia chegou, e encerrava-se a hora. Os últimos raios solares brilhavam já com imensa dificuldade, e o entardecer já começava a trazer o vento frio e silencioso do abandono. Com imenso pesar, Felipe começou a se lembrar de uma época distante. De um frio como aquele, só que do lado de fora da janela. Ali, dentro do quarto aquecido, suavam-se duas peles ardentes, sedentas de amor, de carinho, de beijos embebidos no mais perfeito vinho. Os vidros da janela se embaçavam, assim como tudo o que havia lá fora. Eram, aqueles dois, somente um. E nada mais lá fora importava a eles.
Subitamente algumas gotas de chuva começaram a molhar suas pernas, despertando-o do sonho embriagado de paixão antiga (ainda tão viva!). Só depois de alguns segundos que Felipe conseguiu entender que não era chuva, mas lágrimas. Ela não havia chegado. O pior aconteceu. Se eu não voltar antes do pôr do sol do dia 10 de junho, esqueça-me de uma vez por todas! A última frase da carta parecia-lhe gritar aos ouvidos. O sonho havia acabado. Pensou por um momento em procurá-la. Vai ver, aconteceu alguma coisa. Mas ele sabia que não. Havia acabado. Na verdade, tudo havia chegado ao fim desde o instante amargo em que as duas mãos se separaram.
Anoiteceu completamente. E, embora sua pele estivesse enrugada, Felipe já não sentia mais o frio enregelado que o assolava. Deitou-se vagarosamente no banco, recolhendo os seus joelhos em posição fetal. Naquela noite, Felipe se entregou ao sono tenro das ruas que o recolhiam, encoberto pela bruma esbranquiçada.

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