Há tempos, eu sei. Mas o meu pensamento ainda acaricia a
sua beleza de menina. A minha mente, já convencida da dependência que tem de
você, esforça-se como pode para suportar a dor da saudade, tentando mantê-la
intacta, airosa, como da última vez que lhe vi. E assim, sobrevivendo à
amargura da distância, o meu corpo tenta se conjuntar e agir, como se o fato de
você não estar comigo não significasse muita coisa para todos os anos que eu terei
de viver sem você.
Por vez ou outra eu até me arrisco a escrever. Pincelo
poemas e prosas em folhas de papel sulfite, deslizando lenta e carinhosamente o
nanquim negro pelo pequeno universo branco. Ali, enquanto escrevo, sinto que eu
posso fazer o que quiser de nossa história – que se esqueceu de acontecer.
Sinto-me um deus, um escritor de vidas – das nossas vidas. E nesta brincadeira,
componho um conto, uma história, uma vida paralela. Unindo, a cada capítulo que
eu escrevo, o meu destino ao seu.
Às vezes, quando a vida me é magnânima, surpreendo-me com
uma chamada telefônica que me traz a sua voz. Delicio-me, tanto quanto posso,
com aquele momento de quase-céu. E enquanto conversamos sobre as nossas tantas
histórias que temos para contar um para o outro, dá-me uma insana vontade de te
lembrar da nossa própria história juntos. Mas, em súbito, silencio-me.
Lembrando paulatinamente que nunca houve “nossa história”, mas somente poemas.
Que nunca houve “nós dois juntos”, mas somente os encontros das personagens que
eu criei. E eu começo a me lembrar que a minha memória nunca existiu fora de
mim ou dos livros que eu escrevi, e que o único romance que esta história
conheceu é tão somente uma classificação bibliográfica. Mas sobrevivo, em cada
poesia que teço, amando-te do jeito mais incomum. Sem nunca tocá-la neste mundo
real, mas amando-te do jeito mais pleno num mundo que, pra mim, nunca deixou de
ser verdade.

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