Adeus aos motivos


– Não vai não... Por favor!
Mas Nicole continuava a arrumar as malas, sem manifestar qualquer reação. Era inútil todo e qualquer apelo que Rafael tentasse, pois aqueles olhos negros já haviam se decidido.
– Ouça... – Rafael ainda tentava evitar o pior em uma voz carregada de desespero – Eu realmente não sei o que eu disse, ou o que fiz pra que você queira ir embora. Pra mim, a nossa noite havia sido perfeita. Mas seja lá o que for, juro por tudo que é mais sagrado que não foi a minha intenção! Perdoe-me, por favor!
Naquele momento ela terminava de arrumar as malas. Lenta e poeticamente ela fechava todos os zíperes, deixando o suspense reinar por alguns segundos. Era como se ela estivesse ensaiando todas as exatas palavras que diria a Rafael. Pausou. Respirou fundo enquanto recostava as suas mãos sobre as malas e, com a cabeça baixa, ela começou a dizer com um sorriso irônico no rosto:
– Olha, você não lembra o que disse, mas eu me lembro muito bem. E estou com um sentimento muito ruim sobre você. – Ela fez uma pequena pausa que pareceu durar uma eternidade – Por favor, não me procure mais!
Ele não soube o que responder. Estava realmente surpreso. Na noite anterior ele teve uma noite maravilhosa ao lado dela, e nada estranho parecia ter acontecido. Mas, de repente, ela dizia que estava tudo errado. Que aquilo não poderia mais continuar.
Nicole rolou as malas até a porta, certificando-se ao longo do caminho de que não se esquecia de nada. Não pretendia voltar mais ali. Ao chegar à porta, repetiu o seu pedido, para ter a certeza de que Rafael havia entendido.
– Eu só quero um tempo, Rafael. Mas não me procure mais! Se nos encontrarmos por aí, eu irei te cumprimentar e agir como se com qualquer outro amigo. Mas noites como aquelas... Nós não teremos mais.
As palavras aprofundaram o choque inicial, enraizando-as no fundo daquele coração fértil. Rafael se aproximou dela, sem saber muito bem o que dizer ou fazer, e abraçou-a levemente dando-lhe um beijo suave no rosto. Sentia que aquele seria o último contato com a pele macia de Nicole. E antes de fechar a porta e sumir para cumprir o que ela pedia, disse em voz embriagada de dor:
– Espero que você me perdoe um dia por... seja lá o que tenha feito. – e olhando para ela uma última vez, sentiu uma sensação de traição. – Boa noite, Nicole.
E ela partiu noite a fora. Sem que ele tenha entendido sequer o que a fez vir, muito menos o que a fez ir embora.

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