Examinava minuciosamente a graça de seus contos e os achavam fascinantes - realmente eram. Eram poesias leves e gostosas de ouvir, de se ler, de declamar. Bastava uma moça ouvir o logro deste finório Narciso e caia-se enternecida.
Levava a vida a seu bel-prazer, girava o mundo com as suas próprias mãos. Aprendera a ler os corpos, e entendera a vida como uma regalosa pantomima. O seu condão, tácito mas poderoso, se mostrava nas delicadezas das suas poesias. Nelas, falava de flores sedosas, do ar puro do campo, dos feixes de luz que embelezava as frestas; tudo tão singelo e tão belo. E mais, falava que amores separados pela distância e pelo tempo eram os mais ternos e puros. Dizia tudo que eu sentia, mas só dizia o que aprendera em livros.
A verdade é que Narciso era um covarde egoísta que se preocupava tanto com si mesmo que nunca se deu ao amor. Era calculista e insosso, que no menor resquício de paixão pontuava o fim da história, dando de ombros. E se a moça lhe implorasse um digno pudor da parte de Narciso, ele escrevia uma adenda aos poemas: mesmo as flores mais belas e pomposas, um dia secam e caem ao chão.
Narciso era um rapaz garboso, airoso, com suíças que lhe aparentavam imponência, o que aumentava ainda mais o seu brio. Mas como todo Narciso, sempre há o lago que o afoga. Um dia ele se apaixonou. Notou então que os livros não o ensinaram a reter as lágrimas do desespero, e que também não descreviam as flores como elas realmente são – a forma materializada do amor. Então experimentou pela primeira vez a quebra do seu brio, e a experiência do torpor. Pois a moça que a ele derrotou, fora uma que ele nunca beijou, e por não poder amá-la, jogou-se ao lago e se matou.
(publicado originalmente na quinta-feira, 28 de janeiro de 2010, no blog de memórias)
(publicado originalmente na quinta-feira, 28 de janeiro de 2010, no blog de memórias)

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