Todos os dias ela acorda com a mesma vontade, e não se
levanta da cama enquanto não afasta aquela ideia, temendo cometer alguma
besteira. É claro que ela o ama, que já se entregou, ainda que de uma forma
tímida e ligeiramente controlada, mas se entregou, e isso a assusta. “Não posso
estar apaixonada por ele, pois já estou apaixonada por outro, tenho total
certeza disso!”, é o que a sua mente dançante num espectro de sim ou não, num
zig-zag infinito de querer e não querer, tenta se conformar; e sua certeza
começa a oscilar. E por que haveria de estar apaixonada? Ela é decidida,
teimosa, persistente (mesmo enquanto no erro). É do tipo que termina de ler um livro,
por mais chato que seja, só porque começou a lê-lo. Não ele. A qualquer momento
do dia ele pode parar e pensar se tudo aquilo vale a pena, se é realmente o que
quer. Então, de súbito, abandona tudo e reinicia a partir de onde ele acredita
agora ser o certo. Até cair na dúvida de novo.
Tudo para dar errado, e deu. Certo dia se beijaram. Não
poderia estar mais errado. Eles não se gostam... São amigos, droga! Amigos.
Mas, vai ver, amigos se beijam de vez em quando. Ao menos é isso que eles
tentam acreditar para justificar os erros. Mas eu os entendo. Foi apenas
desejo, desmedido, descontrolado, sem nenhum nexo com o amor. É apenas a necessidade
pregando uma peça naqueles dois que nunca haveriam de dar certo.
Porém, já que é só desejo mesmo, já que eles não se
importam um com o outro, que só são dois amigos que erraram por um motivo
justificável, que mal haveria em também sentir um pouco de alguma coisa pelo
outro? Não, não amor! Outra coisa, assim, tipo vontade de estar juntos. Nada
demais. Só um querer. Não há nada demais, não é? Não é por isso que eles
estariam apaixonados. Não é nada demais o fato dela amar o sorriso dele, o fato
de ela acelerar o coração enquanto ele respira perto dela. Afinal, todos fazem isto.
Todo mundo se arrepia com a respiração dos quaisquer que encontramos pela rua.
É bonito, é melódico, soa quase como se fosse poesia. Ou seria mais que poesia?
De alguma forma aquilo é bonito: ver os pulmões inflarem e esvaziarem ritmados
por um compasso harmonioso do coração. Isso é bonito em qualquer um, ela não
haveria de amá-lo só porque acha isso bonito. Não confunda as coisas.
Pois bem, já que beijar e se agraciar com os inflares dos
pulmões e palpitares do coração é tão naturalmente aceitável entre amigos, qual
seria o problema em fazer alguns planos bobos? Nada demais, eles sabem que isso
não vai acontecer realmente. Então não é pecado, certo? Que tal uma casinha em
volta de um gramado bonito e sempre verde, alguns cachorros a alegrarem o dia, e
os jantares sempre em família, com todos à mesa? Seria lindo, não seria? Os
dois juntos naquela maravilha de vida pacata! Quão lindo seria! Mas não os
levem a mal, se todos podem contar “Era uma vez”, por que diabos eles não
haveriam de se permitir fazer o mesmo? Não é pecado, são só algumas Eras de Vezes.
E como é natural, dentro disso haveria de se ter também os planos para o
casamento e para a lua-de-mel. Não, não é nada estranho, não é nada demais!
Repito, são só dois amigos brincando de Eras de Vezes.

0 comentários