Porta trancada, cortinas fechadas e luzes acesas. O quarto agora me parecia um tipo de esconderijo para os meus medos e receios. Em minha escrivaninha, uma caneta, algumas folhas de papel e um pequeno pote de nanquim negro. A superfície da mesa reluzia brilhante a luz amarela da luminária. E eu ficava a olhar o papel, imaginando o que eu podia escrever ali para que aquela moça entendesse os meus motivos.
A dificuldade maior é enfrentar as primeiras linhas. É colocar o primeiro rastro de nanquim naquele universo virgem. Em minha mente, milhares de sentimentos verbalizavam cada possível começo para aquela carta. Mas todos os inícios pareciam fúteis, como também era a minha vontade de fingir que nada disso estava acontecendo.
Talvez eu devesse escrever uma pequena história descrevendo trechos de nós dois. Talvez assim ela entenda que eu a quero mais do que eu já quis qualquer outra coisa em minha vida, ou talvez ela apenas me elogie e me diga que eu sou um rapaz criativo. Sei lá, vai ver é melhor eu ser direto.
Por um instante, pensei em escrever apenas “Quero você aqui, do meu lado, para sempre”. Daí então eu dobraria, colocaria a pequena carta em um envelope com um selo, e o resto do problema seria serviço dos correios. É... bem que poderia ser. Mas sabia que eu precisaria ser muito mais persuasivo se eu realmente a quisesse do meu lado. Dizer poucas palavras não iria trazê-la aos meus braços.
Pensei então em escrever uma carta comum. Talvez começar com um “Olá, tudo bem?”, daí então seguir uma conversa amistosa até terminar com um “Com amor, seu eterno apaixonado”. Mas sei lá, isso me pareceu cafona. Mas que bobeira, não? O próprio fato de estar escrevendo uma carta já era cafona o suficiente. Mas será que havia outra forma de fazê-la me ouvir? Acho que não...
Um pequeno desespero começou a insurgir, como se o fato de eu não conseguir escrever uma carta já estivesse me condenado a viver sem ela. Tentei evitar, e voltei a imaginar inúmeros começos para aquela carta. Que droga! Talvez ela nem saiba que eu exista! Doía em mim cada possibilidade que eu imaginava que não fosse um final feliz ao lado dela.
E enquanto minha mente se perdia em devaneios, percebi que havia escrito o nome dela de ponta a ponta naquele A4 simples, mas que agora me parecia a mais linda folha de papel jamais vista. Por alguns instantes, fiquei a olhar para perfeição com a qual aquelas letras formavam um nome. E que lindo nome! Por fim, dei-me conta de que eu não era bom o suficiente para escrever uma carta. Pois quando eu pensava em escrever sobre amor, a única coisa que me vinha à cabeça era ela. E a única coisa que eu fazia era traduzir esse sentimento no nome dela.
Pouco a pouco fui caindo na realidade, e minhas lágrimas caindo no papel. Cada gota que caía deformava o nome dela de forma cruel. Pensei em tirar a folha dali debaixo, mas algo em mim queria que ela sentisse cada lágrima que derramei por não tê-la ao meu lado. Incrivelmente eu reparei que o nome dela, mesmo deformado por minhas lágrimas, permanecia igualmente lindo. E de repente vi naquela folha a mais linda poesia. Coloquei num envelope o papel com o nome dela escrito em lágrimas e nanquim, e a enviei para ela. E perguntei-me a todo instante: seria ela capaz de compreender meus delírios? Ou melhor, seria ela capaz de amar os meus delírios?

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