Sonhando


“Falta algo dentre as quatro paredes.” É o que me insiste a voz da saudade neste quarto soturno, essa voz de impaciência insistida de te ter logo aqui. Mil poesias jamais exaurirão a voz aguda e dolorida da saudade irrequieta, irresignada. Jamais dirão o quão doloroso é acordar sem o seu bom dia.
São hábitos que a gente adquire. Sempre que acordo, falta-me algo para fazer pela manhã. Onde estaria a minha doce amada para que eu a servisse de um simplório café da manhã?  Onde estaria ela nos fins de tarde que eu sinto vontade de ir ao parque verde? Ou, então, nas noites que eu passo transeunte em frente a uma floricultura e fico a olhar os lírios e as tulipas. Onde? Onde?
Quando foi o momento em que você se foi? Ou será que você nunca veio? Nunca existiu, nunca me sonhou do jeito que eu sonhei você. O que será que houve? Será que eu sonhei você em qualquer noite e acordei sentindo saudade inexistente, ou será que vivi você à sonho e agora me perdi de você? Onde está você, pequena? Onde está?
Lembro-me, dolorosamente, do teu perfume, do teu calor, do teu excesso de querença. Assustava-me, sabe? Assustava-me saber que os seus sonhos se encaminhavam para tão longe de mim. Assustava-me saber que você sabia disso. Assustava-me saber que você nada fez, e que eu nada pude fazer.
Sim, sim, você devia ter existido mesmo. Pois me lembro bem de tudo isso: do perfume, do calor, dos meus medos, do teu sorriso. Lembro-me das nossas andanças pela cidade, nas vezes em que parávamos de frente a uma vitrine e ficávamos namorando os lustres, as luminárias, os castiçais, a mesa e os jogos de jantar. Éramos, bem, um casal. De forma ligeiramente diferente, incomum. Mas quem ousaria dizer que não? Quando estávamos em frente àquela vitrine éramos exatamente um casal. Éramos um lindo par de alianças chegando a sua casa, ornada com lindas flores, móveis sofisticados e uma iluminação, no mínimo, ideal.
É, eu sinto saudade do nosso futuro. Quem sabe um dia qualquer se transforme em noite, e esta noite traga um sonho bom. Quem sabe você esteja nele. Quem sabe sejamos novamente um casal a andar pela cidade e a semi-fechar os olhos quando sorrirmos apaixonadamente. Quem sabe... Quem sabe.

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