Eu só tenho uma taça

Acho que nunca reparei o significado disso. De tudo que tenho, tenho só um. Tenho apenas um travesseiro, uma xícara de café, um assento na sala. Fiquei deitado na minha cama que só cabe uma pessoa e olhando para a minha escrivaninha que só cabe um computador e uma cadeira. Reparei que não gosto de dividir o meu notebook com ninguém, nem sequer por um momento. É como uma escova de dente, a minha vida toda é como uma escova de dente. Em cima da escrivaninha tem uma taça, apenas uma. Mas ela é mais que uma taça qualquer, ela representa a minha mania de solidão. Ela representa o meu mundo. Acredite.

É o meu hobby preferido, e mais que isso, é a minha mania de vida. Desde que me despojei a mim mesmo, desde que reparei mais em mim, notei que gosto de sair sozinho. Nesses momentos, eu não sei se "me levo ou se me acompanho", já dizia Ana Carolina. Céus! Por que a solidão é tão atraente e cruel? Pior que isso, por que eu gosto tanto de me sentir só? Quem fez isso comigo? Eu mesmo? Fiz tudo só? Sempre? 

Houve um tempo que eu só a quis. Tudo pra mim era ela. A minha vida se resumia simplesmente nela. Não sei se hoje mudou muita coisa. Continua sendo ela. Quando eu quero um contato com o mundo afora, é com ela. É só ela. Institivamente eu disco o número que nunca me saiu da cabeça já na ânsia de ouvir a voz dela, a música que ela canta enquanto fala. Mas quando não é ela, é a minha taça. É o meu vinho, é o vento e a lua. É o balançar das árvores, é o brilhar dos vagalumes, é a sinceridade dos meus choros-poesias, é o meu desespero. Quando não é ela, é tudo isso. E tudo isso me lembra ela.

Mesmo quando bebo, eu cismo em me diferenciar. Bebo para ouvir as poesias, para sentir o coração leve, para sentir o gosto forte da uva, para desenhar o teu rosto nas estrelas. Eu bebo sozinho, num canto do lago, na luz do luar. Eu bebo o meu vinho para estar do teu lado, para me enganar. E sempre funciona. Mas quem disse que você me vê? Você não vê! Não ouve mais o som das minhas lágrimas caindo, não passa mais suas mãos pelos meus cabelos. Você está longe, mas diz estar bem perto. Ou sou eu quem está longe, longe do que você pensa que eu sou. Amizades, amizades... E amores, o que são?

Eu só tenho uma taça, meu amor. Se estivéssemos juntos beberíamos nela? Ou queria ter uma só pra você também?


CORBAN, 2010.

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