Talvez Suzane
só precisasse sair um pouco para deixar que o vento da noite levasse os pensamentos
ruins pra bem longe dali. Mas ela não estava tendo forças nem para se levantar
do sofá de sua casa. Na mente dela, uma voz dizia que algumas coisas
simplesmente nasceram para continuar a ser sempre da mesma maneira até o final.
E em seu rosto, uma expressão tristonha de alguém que já não vê fé no futuro,
nem sorrisos no presente.
Aquela tormenta
resistia já há algumas semanas, e não havia ânimo em seu corpo pra mais nada,
nem mesmo para pegar o telefone e discar o número de sua grande amiga, Sandra,
que se mudara para umas duas dúzias de centenas de quilômetros de Brasília,
onde ainda residia Suzane. Mas de que
adiantaria ligar para ela? O meu problema mais ninguém poderia resolver.
De fato, não
haveria o que se fazer. Suzane sabia bem o que lhe faltava, e não era o abraço
de uma amiga, nem o consolo de uma dose dupla de uísque. O que devia ser feito
na época, não poderia mais ser feito agora, pois Mateus havia se entregado aos
braços de outra mulher. E ela não podia culpá-lo, pois Suzane nunca havia
falado dessa paixão recôndita que ela sentia por ele. Sempre se postou como uma
amiga dele, apesar de guardar em seu peito aquela paixão reprimida. E isso se passou
por quinze longos anos.
Talvez o que Suzane
precisava era fazer o mesmo que Sandra. Ao invés de continuar ali e chorar o
sentimento de rejeição, deveria pegar um avião e partir pra algum lugar. E por
um segundo, um sorriso tímido brilhou por entre seus lábios. E antes que o
sorriso desaparecesse, ligou para um táxi e começou a por uma boa quantidade de
roupas na mala.
Ela não fazia
ideia para onde poderia ir, mas enquanto esvaziava o armário e enchia a sua
mala, começou a aparecer ideias completamente discrepantes: talvez eu vá pro sul, para me enfeitar toda
com as roupas de inverno. Ou quem sabe para o litoral nordestino, pra entregar o
meu corpo ao bronze do sol como um veranista fiel. Ou por que não para o
interior de Minas Gerais? Aquela cultura me encanta! Quanto mais ela
pensava nas possibilidades, mais se sentia renovada.
Ao terminar de
fazer as malas, o táxi já a aguardava do lado de fora. O taxista de prontidão a
ajudou com a bagagem, abriu a porta para que Suzane se acomodasse, e seguiu em
direção ao aeroporto.
No caminho, Suzane
pensou se deveria ligar para Mateus e avisar que faria uma viagem, mas logo
desistiu da ideia, pois não havia sequer decidido para onde iria. Com certeza ele iria me repreender por essa
loucura! E eu sequer poderia dizer o porquê desta insanidade.
Ao chegar ao
aeroporto, ela havia se decidido que iria para São Paulo. Poderia talvez até
conseguir um bom trabalho e já ficar por lá. Depois, quem sabe, mandaria uma
transportadora levar suas coisas. Decidida, deslizou suas malas até o balcão de
vendas e pediu uma passagem para o próximo voo com destino à grande capital.
Teria que
esperar ainda 1 hora e 25 minutos, então resolveu olhar o que havia de
interessante nas pequenas lojas do aeroporto. E quando já havia se fartado de
ver tantas coisas que jamais teve vontade de comprar, seguiu pelo grande
corredor onde se via os portões de embarque e os de desembarque. E quando, por
fim, ia entrar no saguão dos portões de embarque, uma pessoa lhe chamou o nome
de forma bem familiar:
– Suze? É
você?
Suzane não
precisava nem olhar para trás para saber de quem era aquela voz. Virou-se
devagar, tentando controlar os impulsos.
– Oi Mateus,
que surpresa! – o coração dela estava a mil por hora, e ela torcia para que seu
rosto não transparecesse tal nervosismo. Afinal,
o que eu direi a ele?
– Pois é! Não
esperava te encontrar aqui. O que faz aqui, afinal?
Ela não
conseguiu pensar em algo plausível, então disse a primeira coisa que lhe veio a
cabeça:
– Ganhei uma
viagem de uma promoção numa rádio. Irei passar alguns dias em São Paulo. – e antes
que ele remetesse outra pergunta embaraçosa a ela, Suzane rebateu a pergunta –
E você, o que faz por aqui?
– Eu vim buscar
a minha irmã, que deve chegar em alguns minutos. Ela está louca para conhecer a
Rafaela. – Havia uma interrogação no ar, mas que logo foi respondida. – A Rafa
não pôde vir, disse que seria melhor se ficasse em casa preparando o jantar para a minha irmã.
Quando Suzane
ouviu o nome de Rafaela, sentiu uma pontada forte de ciúme. Desejou que já
estivesse no avião, indo para longe dali, mas não podia se deixar abalar por
aquilo. Porém, já era tarde demais para manter seus sentimentos sob controle.
– Você ia viajar
sem me dizer nada? – o tom de voz de Mateus era um pouco preocupado, como se
ele não tivesse se convencido da história da promoção da rádio.
Suzane olhou
para o lado pensativa.
– Quer mesmo
saber a verdade? – ela rebateu a pergunta em tom tímido, cabisbaixa.
Mateus se
sentiu embaraçado. Na hora, não sabia se deveria responder sim ou não.
– A verdade é
que eu estou fugindo de você. – Suzane não esperou que ele respondesse à
pergunta. – E quer saber por que eu estou fugindo de você?
O tom de voz
dela agora era decidido, incisivo, fulminante. E Mateus, com uma expressão
ambígua entre o surpreso e o cônscio paciente, começou a ficar calado em
defensiva.
– Eu estou
fugindo de você porque é sempre isso o que faço. – ela continuou, agora já com
lágrimas no olhar. – Se eu não fujo fisicamente, fujo emocionalmente, ou fujo
com as palavras certas quando eu deveria dizer verdadeiramente o que sinto. Ou
então fujo temporalmente, te dizendo as coisas somente agora. Coisas que eu
deveria ter dito a você há uns quinze anos!
É incrível
como os poucos minutos antes da partida de nosso voo nos traz uma sensação de
segurança mais sólida do que quando estamos trancados sozinhos em nossos
quartos. Mas é uma falsa sensação de segurança, pois mesmo nos aeroportos,
estamos vulneráveis aos sentimentos mais banais. Mas antes de nos darmos conta
desta fragilidade, somos capazes de dizer coisas inimagináveis.
– A verdade,
Mateus... – ela continuou em voz quase rouca. – é que eu sempre te amei! Desde
o momento em que brincamos de esconde-esconde na rua, e você veio se esconder
ao meu lado. Te amei desde o momento em que pegaram o meu caderno no recreio, e
você o pegou de volta pra mim. Te amei desde o momento em que você disse que eu
era uma menina muito mimada, e eu te respondi que você era o garoto mais chato
que eu já havia conhecido.
Na garganta de
Suzane começou a apertar um nó dolorido, que se apertava cada vez mais à medida
que suas lágrimas escorriam as palavras reprimidas ao longo de anos. E a essa
altura, já anunciavam a última chamada de seu voo pelos alto-falantes. Mas ela
não conseguia parar:
– A verdade,
Mateus... – é que você está voltando em poucos minutos para aquela vida que eu
sempre desejei viver ao seu lado desde a infância, enquanto eu estou partindo
para um lugar que eu nunca havia pisado em minha vida. E tudo isso... só porque
eu te amo, e não suporto ver a sua felicidade separada da minha.
Mateus olhou
para o chão, sem saber muito bem como responder a tudo aquilo. E quando voltou
os olhos para Suzane, ela já havia passado pelo portão de embarque e pela
segurança do aeroporto. Mateus gritou o nome dela algumas vezes, de modo que
ela pôde escutar claramente. Mas ela não iria mais voltar. Era hora de seguir
em frente, e enterrar quinze anos de sua vida em um aeroporto frio e
indiferente.

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