Inconsciência momentânea

O sol estava bem exposto, clareava todo o meu chão, mas eu nem sequer me incomodava com o calor. Nem sentia. Contando a partir do momento em que eu tomei conta da realidade, eu estava com uma garota de cabelos ondulados e um tanto compridos, de lábios minuciosamente desenhados e olhos amendoados. Além dela, havia mais algumas pessoas logo atrás em um carro, onde, provavelmente, também estávamos antes de seguirmos sem destino.
Não sei de onde estávamos vindo, ou para onde estávamos indo, parecia uma longa viagem, talvez um bando de fugitivos que estava tentando a sorte em um outro lugar, ou fugindo geograficamente dos problemas. Eu e a garota continuávamos a nos distanciar do restante do grupo, a passos lentos e incertos. Ela andava cabisbaixa, talvez eu estava indo com ela para tentar animá-la.
Uma garota realmente linda, mas deveria ser só uma amiga minha, como sempre (sempre?). De certo ela brigou com o namorado e iria sobrar pra mim novamente, para o velho amigo de todos que não tem amigo nenhum. Procurei e não foi muito difícil de encontrar uma aliança dourada em sua mão esquerda. Senti-me mais estranho ainda, pois agora vi que ela era não só compromissada, mas casada. Sorte do cara que a tem como esposa!
Flagrei-me perdido no rosto dela, ensurdeci-me num delírio descomunal. Ela mexia os lábios, de certo já estava desabafando o que deveria ser dito, mas eu nada ouvia. Minha mente via a cena por outra dimensão, numa dimensão onde estava só eu e ela, e as batidas do meu coração frenético. Culpei-me milhões de vezes por estar me apaixonando por uma mulher casada. O que fazer? Culpei-me mais umas outras milhões de vezes por nem sequer estar ouvindo o que ela dizia.
Era realmente lindo vê-la falar, mexendo os lábios, às vezes até por entre um sorriso. Sorriso? Notei que ela poderia já estar bem a esta altura, devia já ter desabafado o que lhe estragava o coração. Ela sorria agora demasiadamente, talvez bem feliz por estar ali comigo. Mas eu nada ouvia.
No súbito, ela me abraçou. Comecei a ouvir o som da cachoeira, e finalmente a vi, linda e cristalina por detrás de algumas pedras margeadas de musgo. Estávamos a beira de uma cascata, num lugar paradisíaco e lindo, e ela me abraçava tão forte e tão cheio de querer, que eu podia sentir o pulsar um tanto descompassado de seu coração. Pude então ouvir, ainda timidamente, uma voz dizer "Ah como eu te amo..." e me assustei. Seria um daqueles amor de amigos? Hoje em dia isso é tão comum. Ou será que é um daqueles amores sobre o qual eu sempre escrevi? E ela disse novamente "Ah como eu te amo, meu amor." e eu estremeci.
O que eu menos queria naquele momento era me ensurdecer de novo. Leve-me a visão então, mas me deixe ouvir isso mais uma vez! "Sempre soube que estava fazendo o certo quando eu vim... quando nos casamos." ela sussurrava ao meu delírio. Pus-me de volta ao meu lugar. Éramos casados? Ela e eu? Quis perceber isso de maneira mais convincente, e a beijei os lábios como se fosse a primeira vez, pois para mim realmente era. E ela correspondia. Seus olhos enchiam-se de lágrimas, e o meu coração, de paixão. Ao êxtase apogístico, arrebatei-me de volta à minha cama, nesse quarto pequeno de uma universidade qualquer. Longe dela... muito longe dela.

(2010. Blog de Memórias. CORBAN)

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