A fogueira



Era um dia frio, muito frio, onde a paisagem se enublava na bruma densa daquele vale encantado. E foi desse dia que surgiu a necessidade de dar-me a vida, para que eu aquecesse o corpo daquela morena. Ela, jeitosa e carinhosamente, engenhava-me com cuidado, pondo em mim o seu fogo. Eu, tentando lhe ceder o máximo de reciprocidade possível, dava-lhe luz e calor, clareando teu olhar castanho... o castanho mais belo que jamais vi! E quanto mais ela alimentava o meu fogo, mais eu a aquecia com o meu calor intenso.
Eu já havia me acostumado a aquecer o corpo daquela morena. Já tinha adquirido vícios perigosos. Este era o meu modo, minha razão de viver. Eu estava viciado em vestir o corpo dela com o dourado de minha luz, viciado em reluzir seus olhos num brilho que ela só tinha perto de mim, e viciado em aquecer o seu corpo enternecido em gestos tão castos. Aquele corpo moreno era o que me fazia queimar e arder-me em poesia cálida.
Mas quando já se atingia as horas proibidas da noite, ela fez menção de sair madrugada a fora. Implorei-lhe mudo e desesperadamente que não demorasse a voltar. Mas acho que ela não ouviu. A morena se levantou, e seguiu pelo vale, até que a bruma cegou-me a visão. Eu já não a via mais. Não fazia ideia por onde andava aqueles passos incertos, que seguiam por aí sem minha luz. Mas resolvi continuar a queimar, e a queimar, e a queimar... Esperando, talvez, que antes que eu transformasse a última brasa em cinzas, ela reaparecesse para alimentar meu fogo.
E enquanto eu esperava, o sol começou a raiar seus primeiros indícios de um novo dia. O fogo dele iluminava e aquecia muito mais que o meu, e eu sabia que aquele ser que nascia podia aquecê-la onde quer que ela estivesse. Pouco a pouco eu me dissipava em ciúmes. Os raios do sol começavam a ofuscar o brilho da minha poesia, e eu sentia que eu não poderia resistir mais por muito tempo. Toda a minha força de viver se esvaía cada vez mais rápido, e eu precisava desesperadamente da morena que um dia alimentou meu fogo. Precisava que ela novamente me alimentasse com o sentido de viver que fazia meu fogo brilhar tão forte. Mas o dia se tornava mais claro, e o meu fogo já soltava os seus últimos suspiros. E antes de me dissipar completamente, comecei a fumaçar forte. Levei aos céus minhas últimas preces pedindo que eu pudesse vê-la e tocá-la por uma última vez.
Subitamente o tempo se fechou. Os raios solares foram cerceados pelas nuvens, fazendo do dia um breu frio e solitário. E assim que dissipei, as nuvens começaram a soprar forte, mas tão forte, que minhas cinzas se fundiram ao vento. Pude viajar pelo vale a uma velocidade jamais sonhada. E ao ver a morena, soprei forte em seu corpo, em seus cabelos, furtando-lhe o perfume... E aquela foi a primeira vez que a toquei.
Hoje, vivo a vagar por outros vales e oceanos em ventos que sopram para todos os cantos. Longe, muito longe da morena. Mas minhas cinzas agora fundiram-se ao perfume dela, tornando-nos um só. E assim, enquanto o perfume me lembrar do corpo da morena, fantasiarei que eu ainda a aqueço. E nesse mundo de fantasias, fingirei que somos eternos. E assim seremos para todo o sempre, mesmo depois que as minhas chamas se apagaram.

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