Pra curar suas dores



– O que está havendo, Nicole?
Rafael formulava as perguntas com o maior tato. Há pouquíssimo tempo voltaram a se falar, e jamais queria vê-la sair por aquela porta daquele jeito novamente, como ocorrera cinco meses atrás.
– Não é nada, Rafael. Está tudo bem. – e ensaiava um sorriso amarelo.
Obviamente que havia alguma coisa acontecendo com ela. Parecia até que Nicole, por mais que estivesse dizendo aquelas palavras, não estava fazendo muito esforço para disfarçar o que estava sentindo. E Rafael interpretou isso perfeitamente.
Por dentro, Nicole se sentia destruída. E por mais que se negasse, queria dizer a Rafael tudo o que estava acontecendo, tudo o que sentia, tudo o que a machucava. Estava cansada daquela dor solitária. Queria dizer a ele que era ele mesmo o motivo daquela dor. O fato de os dois nunca terem dado certos, decorrente daquele modo grosseiro e um tanto desleixado que ele levava a vida.
Ah, como ela queria juntar-se aos braços dele e dizer o quanto o amava! Mas aqueles modos dele não a permitia se declarar. Queria que ele mudasse tal e tal coisa... Mas mudar alguém parece tão injusto e irracional!
– Está tudo bem, Rafael. – insistiu ela – É sério. Não precisa se preocupar.
 Ele a encarou tentando compreendê-la, mas sem sucesso.
– Tudo bem... – disse ele em tom de despedida. – Eu só quero que saiba que eu sinto a sua falta... Mais do que qualquer outra coisa nessa vida.
É incrível como o tom de voz é tudo num diálogo. Essas últimas palavras fizeram Nicole olhá-lo fixamente num súbito. Não pelas palavras usadas, mas pelo tom suave e sincero que ele empregou. E antes que ela tivesse tempo para qualquer outra reação, ele a cobriu com um abraço reconfortante.
E naquele momento, Nicole já não se lembrava sequer de um mínimo motivo que a estava deixando chateada.

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