Eu estava
muito cansado. Aquela audiência no tribunal esgotou energias que eu nem sonhava
tê-las. Mas devo pôr a modéstia à parte, pois o caso parecia realmente ir bem.
Em um mês ou dois, a sentença seguiria o curso e com certeza nos seria
favorável.
Andei alguns
longos e cansativos passos até encontrar uma praça bem arborizada,
aparentemente livre de mendigos e qualquer outro infortúnio. Sentei-me a um
banco de estrados de madeira, pintados num branco bonito. O gramado era bem
verde, e havia tantos pássaros nas calçadas que me fez sentir um velho a dar
migalhas aos pombos. Ri em silêncio daquilo, e reclinei-me para trás,
encostando minha cabeça no encosto do banco de um modo desleixado, tentando
cochilar feito um vagabundo numa praça pública.
Sentia o vento
aliviar o calor acumulado em meu terno, e aos poucos abri os braços ocupando
todo o banco. Quase que de imediato, senti um pedaço de madeira a bater em
minha perna. Abri os olhos assustados, e mirei no senhor que estava à minha
frente me cutucando a perna com a bengala. Era um idoso de cabelos bem alvos,
escondidos num chapéu de aba pequena. Seus olhos, miúdos, atrás de uns óculos
de aros grossos, dourados. Parecia ter bons modos, apesar de ter me despertado
do meu sono merecido.
O velho, ainda
de pé, fez menção de se sentar. Eu me afastei para o lado para lhe ceder
espaço, e ele não tardou a sentar-se. Olhei-o um pouco acanhado e curioso.
Parecia tão triste. Algo o afetava tão intimamente que fazia todo o seu corpo
responder àquele sentimento.
Como ele não
se apresentou, pensei em fazer as honras. Mas antes que eu pudesse abrir a
boca, ele me disse com o olhar preso ao chão.
- Ela me
deixou.
Isso me
embaraçou. Ele entrou num assunto tão de repente que eu sequer consegui
imaginar uma pergunta adequada para dar continuidade àquela conversa estranha.
- Quem,
senhor? Sua filha? - arrisquei.
Ele me olhou
por alguns segundos, e aquilo me incomodou tanto que eu acabei desviando o
olhar para os pombos que nos cercavam. Mas graças
a Deus ele desviou o olhar e continuou a conversa.
- Minha
esposa. Minha linda esposa. Éramos casados há 60 anos...
Deus pai! Quantos anos este senhor tem?
Foi o pensamento que tive de imediato. 60
anos de casamento? Por um instante nem considerei a separação, mas apenas o tempo de casado.
Tentei me
recuperar e formular outra pergunta que não fosse tão constrangedora quanto à
própria conversa que eu estava tendo ali. E por uns instantes eu até gaguejei,
mas o velho continuou o seu relato, dando uma trégua àquela situação estranha.
- O que eu
farei agora? - a voz do velho trazia tanta dor que me fez olhá-lo com uma compaixão desmedida - Não tenho filhos, netos, amigos... O que se há pra fazer?
Engasguei-me
com aquelas perguntas. O meu olhar analisava as rugas que desenhavam o rosto
dele, enquanto a minha mente tentava me pôr no lugar daquele velho homem. O que será que faz uma mulher se desfazer de
um casamento de tantos anos?
Como se ele lesse
a minha mente, respondeu em voz pesada:
- Ela disse
que precisava viver a vida direito pelo menos uma vez antes que morresse. – fez
uma pausa. – Dá pra acreditar? Então ela me largou e foi morar com o único
amigo que eu tive. Aquele jovenzinho de 62 anos!
Engoli à seco
novamente aquelas palavras. A conversa tinha se tornado um monólogo, e eu não
tinha força alguma para dizer uma palavra sequer. Quando se tratava de um
tribunal, era só a minha voz que se ouvia em show. Os meus colegas do
escritório até me apelidavam de “Voz da Razão”. Bastava que eu começasse os
meus argumentos, e promotor nenhum conseguia rebatê-las. Agora, ali, diante de
um velho simples, minhas palavras emudeciam.
- Há apenas um
mês que estou sem ela. – continuou o simpático velhinho – E sinto como se tudo
que eu vivi ao lado dela fosse apenas uma memória distante. Distante... Tão
distante que às vezes até duvido que a conheci. – o velho novamente pausou
enquanto retirava a aliança dourada do dedo – Mas aí eu olho para essa aliança,
vejo os nossos nomes e percebo que realmente aconteceu, mas eu apenas não dei a
ela a vida que uma companheira realmente merece...
Senti
calafrios. Era filosofia demais para mim. De repente eu já me enxergava na pele
enrugada do velho. E via que era plenamente possível que eu acabasse assim,
sozinho e frágil.
- Pegue, meu
jovem. – o velho estendia a aliança para mim – Guarde esta aliança consigo para
que lembre de sempre cuidar bem de quem quer que estiver ao seu lado. Não prive
esta pessoa de viver. Deixe-a viver a vida magicamente, daquela forma que
sonhamos viver quando somos crianças. – ele assentia dolorosamente com a cabeça
enquanto falava, como se concordasse consigo mesmo – Não deixe a vida fazer
contigo o que fez com esse velho homem...
O velho foi se
levantando com dificuldade, e partindo. Provavelmente sem destino. Saiu
simplesmente caminhando por aí, sem esperança de chegar a algum lugar. E me
deixou ali, com todo o peso da experiência de uma vida de 60 anos de casado,
que agora se resumia em uma simples aliança que deixara em minhas mãos.

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