Acho que este é um grande problema para os juristas que se
metem com poemas (ou para os poetas que se metem com a juridicidade): acaba
sendo uma confusão dos diabos! Deixam-se levar pelas coisas que imaginam
enquanto escrevem, e acabam se esquecendo do modo como escrevem as palavras...
E fica um quid pro quo danado!
E ainda pode piorar. Às vezes, o tal poeta-jurista se mete
a falar de amor. Tragédia maior nunca se viu! E não tem como não ser, pois o
tal poeta só tem em mente três princípios
fundamentais para começar a escrever: ou escreve uma tese de defesa (quando quer falar bem do amor), ou desconstrói os
motivos para se amar baseando-se em elementos fáticos e em argumentos de fácil
consenso (quando o poeta está desiludido), ou ainda pode fazer uma mera análise cognoscitiva do amor (quando ele
quer apenas falar, apresentando os vários argumentos sem se inclinar a nenhum
deles; numa distante, que ele usa uma personagem para falar o que
na verdade ele mesmo queria dizer).
E o linguajar então é o maior destaque nesta heterogenia de
céu e inferno. Pois o tal confuso poeta até se atreve a escrever em linguagem
simples, leve, inteligível por qualquer mocinha de quarta série, mas o grande embargo
é que lhe parece extremamente difícil de escrever assim! Escrever, para ele, é
uma atividade extremamente delicada, em que se requer uma análise minuciosa de
preposições, concordâncias, coesões, coerências... AAAA! Coitado do tal poeta!
Fala, fala e fala de amor e ninguém o entende! Escreve de per si! E até faz trocadilhos com brocardos latinos: dura vita sed vita!
É, meu caro. A vida é demasiadamente dura para ti. Pois os
embargos supracitados ainda não são as piores coisas que ele enfrenta. Afinal,
o coitado também tem que trabalhar. Sim, sim... e de advogado! AD-VO-GA-DO! Dá pra
imaginar isso? Sempre há um infeliz de um magistrado que recebe as tais
petições-poemas! Das poucas vezes que esse advogado-poeta recebeu deferimento em
suas causas foi porque o juiz já estava cansado de receber tantos
recursos-poéticos.
Pobre poeta, pobre jurista! Técnico demais para ser poeta e poético
demais para ser jurista. Uma lástima! Um infeliz. Um coitado. Acho que sua vida só mudaria se ele começasse
a peticionar para uma linda mulher e escrever poemas para os tribunais.

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