Chrono pisava sobre as folhas secas que
caiam de alguns plátanos do bosque, despedaçando cada folha outoniça
propositalmente só para ouvir os seus estalos secos. Repetia estes gestos em
qualquer coisa que encontrasse, experimentando sempre uma desastrosa tentativa
de ocupar a mente com alguma coisa que não fosse Luana.
Arrimou suas costas em um tronco velho e
se jogou amuado ao chão, com o olhar perdido pelo céu. Pensou por um instante
em pedir a ajuda divina, mas duvidou muito que ele seria atendido. Chrono não
queria o alívio de esquecê-la, mas queria-la de volta, poder tocá-la novamente
como se Deus nunca a tivesse tomado para si.
Correu as mãos pelas folhas que o rodeava
pelo chão e agarrou uma delas, mas desta vez com muito cuidado. Trouxe-a para
perto de seu rosto como se segurasse alguma espécie de joia delicada, segurando-a
levemente pelo caule, admirando-a como se fosse parte de sua amada. E quem diria que não? Luana havia sido morta ali, a
pouquíssimos metros daquela árvore que lhe cedia o amparo. Quem diria que nesta
folha não continha qualquer átomo que seja que um dia foi parte do corpo de
Luana Stella?
Não havia mais nada em que pensar. Chrono
girou a folha de plátano lentamente, venerando-a quase como se amasse a própria
folha. Era um gesto corriqueiro de alguém que não pode suportar a perda da
metade de seu coração, na metade de sua mente, da metade de sua vida.
O azul do céu desenhava pouquíssimas
nuvens no céu. Era um dia belo, ameno, que suplicava um passeio romântico pelo
parque. Um dia em que todos deveriam se concentrar em fazer somente coisas
belas. Mas se os ventos roubavam as folhas secas do alto dos plátanos, se os
plátanos roubavam os nutrientes do solo, e se o solo roubava os vestígios de
Luana, não seria Chrono que apresentaria um exemplo de bons modos.
A folha continuava em sua mão, a distância
de seu nariz era de um pouco mais que um beijo. Chrono não queria só tocar em
Luana, precisava também senti-la, ouvi-la, amá-la. E concentrando toda a sua
vontade de recriar Luana mentalmente para alguns poucos momentos de reencontro,
foi ficando cansado, adormecendo sobre o colo das raízes secas.
E neste dia bonito em que os ventos
roubavam as árvores, em que as árvores salteavam o solo, e em que o solo
acometia os vestígios de Luana, algo bom ainda restou em ser feito. A árvore
aconchegou Chrono em seus braços, o solo aflorou as lembranças mais belas de
Luana à superfície, e os ventos as sopraram para as têmporas do garoto. E
naquela tarde de outono, Luana vestiu-se dos sonhos de Chrono para se encontrar
com o seu amado, em um lugar completamente fantasiado, distante, perdido. Feito
tão somente para os dois amantes do impossível.

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