Sorriso de menina

Nunca perdeu o ar de princesa, nem o mimo de menina. Sua voz rouca e mansa lembrava a alguém sonolento, recém acordado. Sua cultura descendia dos romances de Machado de Assis e não dos contos inescrupulosos da cultura norte-americana.
O seu rosto não era sedutor, e seus lábios não abusavam de batom, não eram desnorteantes. O seu perfume ainda era aquele simples e adocicado dos seus tempos de menina, aliás, tempo que nunca a deixou.
Diferentemente de qualquer outra de sua idade, não se escondia atrás de maquilagens, ou quaisquer artes que não fossem poemas. E se houvesse algum adjetivo que se adequasse a ela, este seria algo próximo à "neutralidade".
Já contava vinte e cinco anos de idade, mas ainda não era uma mulher, nem tampouco uma menina. Era um pouquinho de cada: um doce sorriso de menina estampado em um bonito rosto de mulher. Essa era a sua maior mágica, o seu sorriso pequeno e discreto que corava as maçãs, que acendia a poesia, que inspirava as canções. Não era uma simples mostra de dentes, era uma música, um sabor, um poema sobre flores.
A sensação de ver aquele sorriso era a mesma que se deliciar com os primeiros rabiscos de giz de cera de uma filha. Uma sensação boba de orgulho, como se o fato dela existir nos fizesse ser algo mais do que já somos.
Mas ela vive num mundo em que ser bom é errado, em que agir em benevolência não é agir em conformidade. Logo ela vai mudar. Logo ela vai deixar de ter o sorriso unicamente infantil, doce e raro. Acreditará que ela era ingênua, que realmente estava errada em ser gentil, altruísta e meiga. Logo o mundo transformará o seu doce e precioso sorriso de menina em uma ferramenta sínica para o jogo sujo. Logo o seu sorriso não revelará mais nenhum segredo. Terá mistérios e máculas incompreensíveis. Fará chantagens, e deixará de chamar a atenção dos poetas.

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