O pão adormecido

Esses dias eu estava caminhando pela ciclovia aqui perto de casa quando percebi à minha frente um senhor de aproximadamente 60 e tantos anos desacelerando os passos, olhando para trás de vez em quando. Senti que ele estava atrasando os seus passos de propósito para que eu o alcançasse. E não é que eu não goste de me socializar, mas é que quando estou caminhando eu prefiro ouvir o canto dos pássaros e o barulho do vento. E quando finalmente aliamos os nossos passos, ele me disse de forma quase que despretensiosa:

—  Até que enfim um dia bom para fazer uma caminhada, né?

E eu acho que eu não sou tão acostumado com conversas retóricas, porque eu nunca sei bem como respondê-las. Geralmente eu só abro um pequeno sorriso de canto de boca para demonstrar empatia, e até tento soltar uma resposta, quando elas vêm à ponta da língua. Não foi o caso desta vez.

— Já não aguentava mais estas chuvas constantes.  Ele continuou antes que eu precisasse responder à primeira pergunta, mas logo em seguida me jogou uma segunda pergunta.  Você acha que esta semana ainda chove?

Olhei para cima, e olhei de volta para ele. A resposta não veio. Como eu iria saber? Não olhei o Clima Tempo há pelo menos uns 15 dias. Sabia que eu devia ter tirado aquele widget de clima da home do meu celular. Desta vez, no entanto, o simples sorriso não iria me deixar escapar da pergunta, então eu resolvi abrir a boca e ver o que saía.

 — Acho que não...  falei enquanto puxava o meu celular do bolso  o senhor quer que eu olhe a previsão para o senhor?

O mestre da interação social. E ele percebeu. Na mesma hora soltou um sorriso que, embora devesse ser de deboche, pareceu simpático:

 — Você não é muito de conversar, não é?

  Desculpa... - respondi ainda mais acanhado - acho que não estou muito acostumado a conversar sobre o tempo ou sobre... qualquer coisa.

  Eu entendo.  ele me respondeu enquanto ria e olhava pra cima, como se estivesse se lembrando de alguma coisa.  Um amigo meu costumava me dizer que existem dois tipos de pessoas: as que fazem amizade na fila do pão, e as que comem o pão amanhecido para não precisar se socializar pela manhã. Eu gosto de pão fresco, e você?

Parei um pouco pra pensar. Não me achava introvertido. E eu até converso bastante com as pessoas. Será que eu sou o cara do pão adormecido?

 — Acho que eu sou cara que às vezes nem come pão acabei respondendo.

Talvez devesse experimentar.  Respondeu. — Na pior das hipóteses, pelo menos irá ter pão fresco na mesa.

Ele sinalizou com a mão para frente e abriu um sorriso enquanto começava a ensaiar uma leve corrida. Talvez tivesse se fartado daquele diálogo quase que tendendo ao monólogo. Mas acho que não. Acho que ele sentiu que já tinha deixado a mensagem que queria. E eu me perguntei se algo em mim estava demonstrando que eu precisava de algo daquele tipo. 

Ele acelerou tanto a corrida, que em menos de 10 segundos já estava a quase dois metros de mim. Mas o que eu queria afinal? Ele não parecia do tipo que estava disputando uma corrida com ninguém. E conforme ele ia se distanciando, as palavras ditas começavam a ecoar em minha mente buscando algum sentido.

E naquele momento eu ainda não sabia se ele disse aquilo metaforicamente ou se foi literal, mas me deu vontade de comer um pão francês fresco e quentinho com manteiga, e um café bem cheiroso. Pensei então que seria uma ideia de negócio bem bacana se alguém criasse um aplicativo que entregasse pães frescos à domicílio. E naquele momento eu comecei a entender que se eu fizesse assim, mesmo que eu comesse pães frescos eu ainda seria um pão adormecido.

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