A felicidade que a gente constrói




Hoje pela manhã um velho conhecido apareceu aqui em casa. Sem mais nem menos, sem aviso nenhum. Como se fazia antigamente. Hoje em dia é quase uma falta de respeito você chegar sem avisar, mas não para mim. Sou adepto dos tempos antigos. Sinceramente, eu gostei da visita inesperada.

Era cedo. A casa estava toda bagunçada e eu tinha acabado de acordar. Na verdade, eu acordei com o cachorro latindo, anunciando a chegada de alguém. Espiei pela janela, e de início eu não reconheci. Calcei meus chinelos, esfreguei o rosto com as palmas das mãos tentando ficar mais desperto e fui até a porta. Quando a abri, fui reconhecendo aquele sorriso por entre as grades do portão. Era um amigo meu do tempo de escola. Fui tomado por uma grande alegria, talvez motivada por aquele sorriso que se dirigia a mim. E fui abrir o portão.

Quando o abri, soltei uma expressão meio inefável, tentando de algum modo demonstrar a sensação confusa, mas boa, de revisitar a minha infância na forma de uma pessoa batendo ao meu portão. Abracei-o e disse “Se veio aqui me cobrar por aquela bola que chutei no telhado do vizinho, tá perdendo o seu tempo. Eu ainda não tenho dinheiro.” Ele riu, dizendo que não iria me cobrar pela bola se eu não cobrasse pelo carrinho dos bombeiros que ele havia quebrado. Na hora fui pego de surpresa. Esses anos todos e eu não fazia ideia de como o meu carrinho apareceu quebrado na sala de casa. Eu sei, mais de 35 anos havia se passado, mas descobri que eu ainda guardava um pequeno rancor a quem quer que seja que havia quebrado o meu brinquedo favorito.

Entramos, acomodei-o no sofá e fui preparar um café. Passamos a manhã inteira conversando sobre tudo o que aconteceu em nossas vidas durante todos esses anos. E foi assim, narrando a minha própria história que me dei conta do lugar que arrumei para mim na vida.

Quando criança, minha felicidade era constituída das doses exageradas de alegria no dia a dia. Na adolescência, foram os vários amores intensos e eternos que traziam a sensação de felicidade. Porém o tempo passa, e o que percebi com os meus 43 anos de idade, é que esse tempo passa depressa demais. E no morrer de algumas vaidades, o que me faz feliz é aquilo que semeei para me fazer feliz. É o meu cachorro no quintal, o vento fresco na janela, os pés de fruta no quintal, o cheiro do café de manhã, o som dos pássaros quando lido com a terra no fim de semana, e o mais importante, as pessoas que amamos como irmãos.

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