– Arqueóloga?
– Sim. – ela
riu descontraidamente – Por que o espanto? Por acaso achava que nós, mulheres,
não poderíamos nos tornar arqueólogos também?
– Não, não,
não! Desculpe-me! Não quis parecer machista. – respondi nervosamente, e ela
olhou para mim com o rosto levemente corado.
Na verdade eu
não estava estranhando a profissão dela, mas simplesmente admirando. Desde
quando eu era criança até a minha adolescência que eu sonhava em me tornar um
arqueólogo e viajar o mundo pesquisando sobre qualquer coisa que me vier à
cabeça, mas eu nunca tinha conhecido um arqueólogo antes, muito menos uma
arqueóloga. Talvez por isso eu nunca tivesse seguido este sonho.
– Na
verdade... – ela interrompeu os meus pensamentos com uma intromissão doce. – eu
pensava em me formar em Direito também. Quando criança eu assistia a alguns
filmes com meu pai sobre grandes julgamentos históricos, e eu ficava me
imaginando sendo uma grande advogada. Mas... – ela soltou uma leve risada de desdém,
como se ela simplesmente estranhasse a ideia que tivera – acho que eu não fico
bem nos terninhos. – e ela então
olhou pra mim com o rosto sempre corado – Sem ofensas!
Eu ri daquilo.
Na verdade, também não me imaginava usando terno e, hoje, não me imagino fora
de um. Sei lá, acho que me sentiria nu.
– Sorte a sua.
A minha voz
saiu num tom em que a tristeza e a felicidade se confundiam em uma coisa só. O
meu olhar estava perdido no nada, como se eu enxergasse na minha frente alguma
coisa que estava passando na minha mente. E ela me olhou interessada.
– Sorte a
minha?
Eu ri ao
perceber que a minha frase realmente não tinha muito sentido.
– Você quer
dizer que eu tenho sorte em não ficar bem em um terno? – ela continuou.
Eu ri mais
ainda. Realmente ficou parecendo isso o que eu quis dizer.
– Não, não! –
eu ainda sorria um pouco nervoso – Eu quis dizer que você tem sorte em viajar
por todo esse mundo sem ficar se preocupando se o seu terno está bem passado,
ou se o seu cabelo está bem aparentado. Bem, você deve saber... Neste mundo de
tribunais e escritórios a aparência vale mais que o seu conhecimento em
direito.
– Ah, sim. Eu
imagino como seja. Mas não se iluda com isso. Afinal, vivemos numa ditadura da
beleza. E essas manchinhas de sol no meu corpo não são, digamos assim, os meus
motivos de orgulho.
Eu olhei para
a sua pele e fiquei, estranhamente, encantado. Na verdade aquelas pequenas
manchas aqui e ali até lhe davam uma certa beleza peculiar.
– Não seja
boba. – eu disse em tom carinhoso – essas manchas são quase que imperceptíveis.
E além do mais – completei – eu acho que elas te dão até um certo charme.
– Charme? –
ela riu novamente.
– É. Um charme sim. – disse enquanto eu olhava
para ela, um pouco encantado com alguma coisa misteriosa que irradiava daquela
mulher – É como se cada manchinha dessas fosse uma de suas aventuras pelo mundo
a dizer que você sabe muito bem aproveitar a sua liberdade. E sabe de uma
coisa? – eu olhei em seus olhos reparando pela primeira vez os castanhos mais
brilhantes que eu já conheci – Eu falo em liberdade quase todos os dias no
tribunal. Falo do ir e vir e de
tantos outros discursos há séculos repetidos, mas eu mesmo me sinto preso a
esta cidade.
Ela sorriu
simpaticamente.
Tinha alguma
coisa naquele sorriso que me prendia o olhar. Algum feitiço ou encanto que
seduzia a minha imaginação.
– Se isso te
incomoda tanto, por que não muda os seus rumos e experimenta esta vida lá fora?
Eu olhei pra
ela sem acreditar. Ela via tudo no mundo com tanta simplicidade que pra ela
parecia muito simples largar tudo que está fazendo e ir pra outro lugar no
mundo. É como se o fato de ser possível já se tornasse simples ao mesmo tempo.
– Não posso
largar tudo assim tão simplesmente.
– Bom... Neste
caso largue tudo complicadamente. –
respondeu em tom natural.
– Você fala
como se tudo na vida fosse muito simples. – sorri pra ela ironicamente.
– É porque é,
realmente, muito simples. – ela respondeu ainda em tom natural – A gente que
costuma ter dificuldade em ser tão
simples.
Naquela hora
eu me lembrei de uma música que dizia “...que
no fundo é simples ser feliz. Difícil é ser tão simples”, e fiquei
imaginando se realmente fui eu quem fiz da vida esta cadeia em que eu me sentia
preso. E senti-me um pouco angustiado em imaginar a possível resposta.
Olhei para
ela, e notei que o leve sorriso estava sempre presente em seu rosto, e senti
uma certa inveja.
– Olha... –
ela disse enquanto anotava alguma coisa num pedaço de papel – vamos fazer
assim: amanhã às 8 horas eu estarei embarcando para a Nigéria. Se você tiver
interesse em experimentar uma aventura – ela me entregou o pedaço de papel – é
só me ligar ou aparecer no porto até às 7:30h.
– Espera aí! –
esbravejei assustado. – você vai até a África de navio? – Na hora eu tentei mentalizar rapidamente se a Nigéria
realmente ficava na África. Meus conhecimentos de geografia eram péssimos.
– Você está
sempre complicando, hein? – ela se divertia com a minha caretice – Qual seria o
problema em viajar de navio? Afinal, você já experimentou navegar por aí num
navio? É uma das sensações mais fantásticas que existe!
Para mim, uma
viagem de navio atravessando o Atlântico poderia ser qualquer coisa, menos uma sensação fantástica. Mas eu me limitei a
sorrir do comentário e das perguntas dela.
– Bem... Eu
preciso ir. Tenho alguns amigos na cidade que eu preciso rever antes de ir
embora. Foi um prazer conhecê-lo, Sr.
Corban.
– O prazer foi
todo meu, senhorita... – engoli à seco. Havia esquecido o nome dela. – Perdão!
Mas como é mesmo que se chama?
Ela sorriu.
– Vamos fazer
assim. Se você aparecer por lá amanhã, eu direi o meu nome e ainda te prometo
uma viagem inesquecível. – Ela piscou o olho de um jeito antiquado, mas
divertido, e saiu rua a fora espalhando sorrisos por aí.
Mais tarde,
quando eu havia chegado em casa, ri da situação e joguei o número dela na
lixeira. Retirei aquele meu terno como se retirasse uma joia muito cara, e fui
tomar uma boa ducha para esquecer toda aquela loucura daquele dia sem sentido.
– Oras! Como se eu fosse viajar com uma
maluca que eu acabara de conhecer e que nem sei o nome!
No dia
seguinte, sem saber se motivado pela curiosidade de saber o nome daquela mulher
misteriosa ou simplesmente pela sede de experimentar aquela liberdade que tanto
a fazia feliz, eu saí acelerando o carro em direção ao porto. No banco de trás
do carro, algumas mudas de roupa que certamente não me serviriam para usar na
África. E lá no meu escritório ficavam para trás prazos processuais e agendamento de
consultoria com clientes que certamente a minha secretária não saberia
resolver.
Em uma coisa aquela mulher tinha razão: com toda a certeza aquela era uma loucura que eu jamais me
esqueceria.

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