Eu nunca fui a
favor de bater em um filho. Mas minha esposa, talvez pelo fato de ser cristã,
dizia que não devíamos deixar de corrigi-lo com o cinto. Eu tentava insistir,
dizendo que existem outros modos de se corrigir que não fosse a violência. Devíamos tentar simplesmente
conversar com ele. Mas a partir daí já não havia mais conversa, pois ela não
encarava aquele ato como violência e sempre fechava a cara quando eu citava
esta palavra. Ela sempre dizia que se a gente não bater, o filho não conseguirá
entender que fazer tal coisa é errado.
Certo dia meu
filho levou alguns dos livros de minha mulher para o quarto dele. Não era a
primeira vez que ele fazia isso. Coloriu algumas páginas com lápis de cor, e
até recortou a foto de um peixe que estava em uma dessas páginas. E ao ver
aquilo, minha mulher perdeu a cabeça. Eu estava na sala lendo o jornal, e mesmo
de lá eu pude ouvir o grito:
– Eduardo!
Em meio àquele
grito, eu quase caí do sofá. E, por fim, nem sabia mais qual notícia que eu
estava lendo naquele jornal. Era como se aquele grito tivesse sido comigo. Entretanto,
o pior ainda estava por vir.
Quando ela viu
o recorte no livro e os desenhos de sol e nuvens feitos à lápis de cor, ela
ficou uma fera. De lá onde eu estava pude ouvi-la balbuciar um murmurinho
gaguejado. De certo, incrédula do que estava acontecendo. Estava completamente
incapaz de dizer qualquer coisa. Foi então que ela, recuperando o fôlego e
perdendo a consciência, disse em voz baixa (que não escondia o estresse), como
um alguém que dá instruções a um animal:
– Você vai
levantar agora, vai andar até o quarto do papai e da mamãe, vai pegar o cinto e
irá trazer pra mim.
A esta altura,
eu já estava subindo as escadas em direção ao quarto dele. O Dudu veio chorando
baixo pelo corredor, olhou para mim como em um pedido de súplicas. Mas eu acho
que quando um dos pais está corrigindo, o outro não deve intervir. Acredito que
do contrário estaríamos tirando o respeito que o filho tem por uma ordem que
foi dada.
O Dudu entrou
em meu quarto, e eu segui até o quarto dele, onde a minha esposa ainda estava
em meio aos livros no chão. Cheguei mais perto e percebi que o que ela olhava
agora não era um de seus livros, nem um dos meus, era um diário. Olhei para
aquele objeto com incredulidade. O Dudu tem apenas oito anos. Como poderia ele
já está escrevendo coisas sobre os seus dias? Mas pensando melhor, existe idade
pra isso?
A minha mulher
não tirava os olhos daquele diário. E eu, instintivamente, tentei proteger a
privacidade do menino.
– Eu acho que
nós não dev...
Tive que me
interromper. Minha mulher, ao ler aquilo, fazia parecer que algo estava mudando
dentro dela. É como se as palavras de Eduardo estivessem amordaçando o ódio que
provocou toda aquela gritaria. Aproximei-me um pouco para tentar enxergar o que
estava escrito, e notei que narrava o último dia em que o menino havia apanhado
da mãe.
Nesse momento,
o Dudu entrou, parando na porta assim que viu a mãe com o seu diário aberto nas
mãos. Parecia que se sentia um pouco envergonhado.
– É assim que
você acha que eu sou? – perguntou a minha mulher ao meu filho. – Acha que eu bato
em você pra me sentir melhor?
Ele não
respondeu.
A voz de minha
mulher parecia entristecida. Senti um ligeiro arrependimento em cada uma de
suas palavras.
Ela começou a
ler em voz alta:
– “(...) Acho que a mamãe não gosta muito de
mim, ou ela só gosta de mim quando eu estou chorando. Toda vez que ela fica
zangada ela bate em mim, e eu nem sei porquê”. – Ela pausou a leitura e
olhou para mim, com o rosto nitidamente confuso. Então prosseguiu. – “Parece que ela só consegue ficar feliz de
novo quando me vê apanhando e chorando. Mas está tudo bem, apesar de doer muito.
Papai disse que às vezes a gente precisa fazer alguns sacrifícios para fazer
quem a gente ama feliz.”
Nesse momento
o menino abaixou a cabeça e estendeu o braço oferecendo à minha esposa o cinto
de couro. Minha esposa olhou para o objeto por uns instantes. Olhou para mim. E
depois para o cinto novamente. Estendeu a mão e o pegou.
Notei que
quando ela retirou o cinto das mãos de Dudu, o menino estremeceu o corpo
inteiro em calafrio. Certamente consciente da dor que sentiria dali a poucos
segundos. Eu comecei a me afastar de lá, pois sou muito fraco para ver uma cena
daquelas. Mas parei assim que ouvi a minha esposa conversar com o menino.
– Você sabe
que eu não faço isso por mal, não é mesmo?
O menino
assentiu com o rosto terrivelmente amedrontado.
Porém a minha
esposa, ao perceber a ambiguidade que a pergunta sugeria, tentou retificar:
– Quero dizer,
não é para o seu mal.
Desta vez o
menino pareceu confuso, mas concordou com ela nitidamente sem saber por que
estava concordando. Só queria acabar logo com aquilo.
– Eu não te
bato para me sentir feliz. Pois nem eu fico feliz com isso. Eu só faço isso
para que você não cometa mais alguns erros – Minha esposa tentava explicar algo
que nem ela parecia entender direito. – Acredite em mim, isso dói muito mais em mim do que em você.
O menino olhou
para ela de forma ainda mais confusa. E criando a coragem que eu nunca tive de
enfrentar a mãe dele, disse:
– Mas por que
a senhora não me diz simplesmente o que eu devo ou não devo fazer ao invés de
me bater? Assim, não vai doer nem em mim nem em você.
Minha esposa
parecia não estar preparada para aquela conversa. Dava pra ver em sua hesitação
diante de cada cena inesperada. Já eu, só observava a lição que estávamos a
aprender com o nosso filho. Dificilmente havia diálogo naquela casa. Pois minha
mulher, como ela mesma costumava dizer, era indomesticável. Mas eu começava a
ver que não era bem assim. Eu só não sabia como cativar uma conversa com ela,
mas o meu filho sabia (e com tão poucas palavras!).
Ela lentamente
se levantou, deixando o cinto no chão, e humildemente pediu para que o Dudu não
mexesse mais nos livros dela. Deixando o quarto em seguida. O menino ficou com
uma cara estranhamente engraçada, apesar da tragédia. Tentei interpretar aquilo
e me vi diante de uma frase simples e curta. A cara dele significava “Era só
isso?”.
Daquele dia em
diante, os livros dela nunca mais foram mexidos por ninguém a não ser ela. Nem
mesmo eu os toquei.

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