Foto tirada no dia 24 de setembro de 2024, às 17:34.
Local: Lago Açu (Lago do IA) - UFRRJ, Seropédica - RJ, Brasil.
Local: Lago Açu (Lago do IA) - UFRRJ, Seropédica - RJ, Brasil.
Foto tirada no dia 21 de novembro de 2019, às 11:04.
Local: Praia da Cacimba do Padre, Fernando de Noronha - PE, Brasil.
Esses dias eu estava caminhando pela ciclovia aqui perto de casa quando percebi à minha frente um senhor de aproximadamente 60 e tantos anos desacelerando os passos, olhando para trás de vez em quando. Senti que ele estava atrasando os seus passos de propósito para que eu o alcançasse. E não é que eu não goste de me socializar, mas é que quando estou caminhando eu prefiro ouvir o canto dos pássaros e o barulho do vento. E quando finalmente aliamos os nossos passos, ele me disse de forma quase que despretensiosa:
— Até que enfim um dia bom para fazer uma caminhada, né?
E eu acho que eu não sou tão acostumado com conversas retóricas, porque eu nunca sei bem como respondê-las. Geralmente eu só abro um pequeno sorriso de canto de boca para demonstrar empatia, e até tento soltar uma resposta, quando elas vêm à ponta da língua. Não foi o caso desta vez.
— Já não aguentava mais estas chuvas constantes. — Ele continuou antes que eu precisasse responder à primeira pergunta, mas logo em seguida me jogou uma segunda pergunta. — Você acha que esta semana ainda chove?
Olhei para cima, e olhei de volta para ele. A resposta não veio. Como eu iria saber? Não olhei o Clima Tempo há pelo menos uns 15 dias. Sabia que eu devia ter tirado aquele widget de clima da home do meu celular. Desta vez, no entanto, o simples sorriso não iria me deixar escapar da pergunta, então eu resolvi abrir a boca e ver o que saía.
— Acho que não... — falei enquanto puxava o meu celular do bolso — o senhor quer que eu olhe a previsão para o senhor?
O mestre da interação social. E ele percebeu. Na mesma hora soltou um sorriso que, embora devesse ser de deboche, pareceu simpático:
— Você não é muito de conversar, não é?
— Desculpa... - respondi ainda mais acanhado - acho que não estou muito acostumado a conversar sobre o tempo ou sobre... qualquer coisa.
— Eu entendo. — ele me respondeu enquanto ria e olhava pra cima, como se estivesse se lembrando de alguma coisa. — Um amigo meu costumava me dizer que existem dois tipos de pessoas: as que fazem amizade na fila do pão, e as que comem o pão amanhecido para não precisar se socializar pela manhã. Eu gosto de pão fresco, e você?
Parei um pouco pra pensar. Não me achava introvertido. E eu até converso bastante com as pessoas. Será que eu sou o cara do pão adormecido?
— Acho que eu sou cara que às vezes nem come pão — acabei respondendo.
Talvez devesse experimentar. — Respondeu. — Na pior das hipóteses, pelo menos irá ter pão fresco na mesa.
Ele sinalizou com a mão para frente e abriu um sorriso enquanto começava a ensaiar uma leve corrida. Talvez tivesse se fartado daquele diálogo quase que tendendo ao monólogo. Mas acho que não. Acho que ele sentiu que já tinha deixado a mensagem que queria. E eu me perguntei se algo em mim estava demonstrando que eu precisava de algo daquele tipo.
Ele acelerou tanto a corrida, que em menos de 10 segundos já estava a quase dois metros de mim. Mas o que eu queria afinal? Ele não parecia do tipo que estava disputando uma corrida com ninguém. E conforme ele ia se distanciando, as palavras ditas começavam a ecoar em minha mente buscando algum sentido.
E naquele momento eu ainda não sabia se ele disse aquilo metaforicamente ou se foi literal, mas me deu vontade de comer um pão francês fresco e quentinho com manteiga, e um café bem cheiroso. Pensei então que seria uma ideia de negócio bem bacana se alguém criasse um aplicativo que entregasse pães frescos à domicílio. E naquele momento eu comecei a entender que se eu fizesse assim, mesmo que eu comesse pães frescos eu ainda seria um pão adormecido.
Com o grito, acordei assustado e com o coração acelerado. E mesmo sonolento, de imediato identifiquei que era o grito da pequena Gabriela. No salto que dei da cama, quase que no mesmo instante eu já estava na porta do quarto dela. Mesmo assim, cheguei lá depois do Teteco, que já arranhava a porta para ver o que estava acontecendo. De certo ele estava dormindo à porta do quarto. Ele tinha esse hábito de nunca dormir na caminha que comprei por quase quinhentas pratas. Talvez fizesse isso para me desafiar, embora alguns me dissessem que aquele era o modo dele de proteger minha filha.
Quando abri a porta, a Gabi em prantos gritou de imediato:
— Papai! Levaram o Teteco...
O rosto dela mudou rapidamente de pânico para confuso ao ver o Teteco se aproximar da cama.
— Eu... Eu... Eu vi alguém num carro levando ele... — ela tentava explicar aquilo que ela não fazia ideia de como explicar. — Eu juro que vi!
Eu me sentei ao lado dela na cama, e tentei explicar que sonhos não são de verdade. Que às vezes eles até podem parecer bem reais, mas eles só acontecem na nossa cabeça.
Ela se esforçava para entender enquanto tentava se acalmar olhando para o Teteco. Realmente não tinha um nome melhor para essa fábrica de pelos? Mas algo no rosto dela demonstrava que havia algo faltando na explicação.
Ou talvez não. Ela de repente parecia entender o que aquilo significava, mas voltou a ficar assustada enquanto perguntava:
— Então o Teteco que vive na minha cabeça foi levado?
De início, nem entendi a pergunta direito. O Teteco da cabeça? Naquela hora lembrei de Tico e Teco, e ri. A Gabi pareceu ofendida por eu ter rido naquele momento.
Mudei a expressão rapidamente e tentei explicar novamente. Só não sabia exatamente como eu iria fazer isso. Mas aí lembrei da minha infância e das coisas bobas que eu costumava acreditar.
— Olha, filha, as coisas que acontecem na nossa cabeça quando estamos dormindo são como um filme, só que não é a gente que escolhe qual filme que vamos assistir nos sonhos. Mas... — Enquanto falava, tentava estudar a expressão dela naquela meia-luz do abajur que iluminava tenuamente o rostinho descabelado e umedecido pelas lágrimas recentes. — ...dentro dos sonhos, nós ganhamos super poderes e podemos fazer tudo que a gente quiser.
— Igual a Bloom?
Quem? Mas o quê? O que aconteceu com a Capitã Marvel e a Mulher Maravilha que eu fiz você assistir? Eu falhei como pai. Imagino que seja uma heroína também, mas certamente não é da minha época. Eu sorri amarelo e apenas confirmei:
— Sim, filha, igual a Glun.
— É Bloom, pai. Bloom Peters. É a princesa do planeta Domino, aquela que tem o poder da Chama do Dragão.
Ela buscava em mim alguma confirmação de que eu finalmente tinha me lembrado. Mas eu não fazia ideia sobre qual filme ela estava falando. Por sorte, ela prosseguiu sem parecer se importar sobre algo que, a princípio, parecia importante pra ela:
— Você acha que eu posso então salvar o Teteco da minha cabeça?
— Acho que você não precisa se preocupar com ele, porque aí dentro da sua cabecinha o Teteco é um supercão, e nada jamais será capaz de fazer mal algum a ele. Na verdade, ele não foi levado naquele carro. Ele entrou no carro para combater aquelas pessoas do mal, para que eles não fizessem mal a mais ninguém. Mas pode acreditar que quando você voltar a dormir e chamar por ele, o Teteco vai aparecer.
— Tem certeza?
— Claro, filha. E se precisar de ajuda para enfrentar o mal nos seus sonhos, você sempre pode chamar a princesa do planeta do dragão, o Teteco ou então o seu super pai.
— O nome do planeta é Domi... — ela olhou pra mim com um pouco de pena por eu não aprender nem o nome do planeta. — deixa pra lá. Obrigada, pai.
— Pode contar comigo, filha. Boa noite. — dei um beijo nela enquanto me levantava.
— Boa noite, pai.
Chamei o Teteco e já ia saindo do quarto para levá-lo inutilmente de volta para a caminha pet que ele detesta (e que sempre se levanta pra deitar em outro local depois que saio), mas a Gabriela me interrompeu:
— Ô, pai... O supercão pode dormir no meu quarto hoje?
Eu tinha algumas regras sobre essa máquina de soltar pelo ficar no quarto na hora de dormir, mas não pude negar desta vez.
— Claro, filha...
— Eba! Te amo, pai!
Eu sorri, e voltei para o meu quarto. E naquela noite eu fiquei pensando: como tudo pode ser tão simples na vida de uma criança? Basta uma historinha, e todo medo se vai. Mas quando é com a gente, tudo é tão complicado. Sair do emprego que a gente detesta, iniciar um novo relacionamento com alguém, ou mesmo voltar a falar com aquele amigo que permitimos que o tempo nos distanciasse...
Sei lá, talvez eu tente pensar igual a uma criança no sonho de hoje. Quem sabe eu, pelo menos em meus sonhos, possa mudar de emprego e sair com os velhos amigos para nos divertirmos um pouco de novo. Quem sabe assim eu até encontre alguém interessante, nem que seja que eu me encontre com ela novamente só em meus sonhos. Seria interessante. Mas seria eu ainda capaz de acreditar nos meus super poderes?

Designed by OddThemes | Distributed By Gooyaabi Template